Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

THE ONE THAT GOT AWAY

Uma carta de despedida por Tiago Moura



PRÓLOGO

Quando recebi a mensagem do Paulo sobre participar nos possíveis últimos instantes deste capítulo da vida da Berta, e de decidir que o queria fazer, não me conseguia distanciar da primeira ideia que tive quando li o mote sob o qual devíamos submeter as nossas participações.

Não será, provavelmente, o tipo de publicação que esperariam dentro do tema (muito menos dentro do cadastro da Berta), mas, para mim, faz todo o sentido falar dele.


PARTE I

A primeira vez que me senti profundamente ligado a alguém, conhecia só a sua voz. Tinha acabado de entrar na faculdade – algo que nunca me tinha sido garantido pelos meus pais – e passara grande parte dos meus dias, até então, escondido de experiências que achara que me iriam marcar mais do que já me sentia.

Uma tarde, na mesa do canto do bar do Júlio, aquela junto à janela, onde me sentava em grupo e tentava passar despercebido, passaram-me um par de auscultadores e disseram-me «Ouve isto».

Na língua inglesa existe uma expressão associada ao Cristianismo – born again – que define aqueles que encontram Cristo numa fase tardia da sua vida. Sempre gostei dessa ideia de nos podermos reinventar e começar de novo: sans crostas.

Foi sempre um ponto de contacto entre mim e uma personagem fictícia, quando elas exprimiam esse desejo que eu nunca poderia concretizar, e um argumento para inveja quando elas o conseguiam.

Olhando para trás, com os benefícios da memória seletiva, esse foi o momento que catalisou o meu próprio renascimento. A voz que ouvi era suave e sussurrava gemidos e palavras que no meio do barulho de chávenas e de jogos de cartas a serem gloriosamente ganhos, nas mesas ao meu lado, se perderam, mas o timbre era magnífico. Era, não querendo exagerar nas referências sacras, semelhante a um coro de igreja, no modo como parecia comunicar diretamente com algo transcendente. Quando a música acabou e não querendo ofender a pessoa com a minha ignorância respondi que tinha gostado e perguntei o nome: «Jeff Buckley».

Nos dias que então corriam, fez sentido que fosse um homem a alfinetar nervos em mim que nunca tinha liberto. Quando cheguei a casa, nesse dia, fiz uso da minha maior abertura sentimental virtual e pedi que me enviassem mais música dele.

Enquanto o ficheiro não descarregava, percorri a Santíssima Trindade (julgo que esta será a última referência religiosa) das pesquisas informáticas: Google, Youtube e Wikipédia. Foi quando descobri que, em 2006, momentos após o ter descoberto, Jeff Buckley estaria morto há 9 anos. Para a minha cabeça de então 18 anos foi uma informação irrelevante: nessa altura, lembro-me que andava enamorado com a Nina Simone, que morrera anos antes, com a Ella Fitzgerald e começava a dar os primeiros passos na discografia da Édith Piaf, por isso não me causava estranheza sentir-me conectado a artistas musicais que, por circunstâncias maiores ou menores, haviam deixado de criar. Morrera afogado no rio Mississippi, nos Estados Unidos da América, durante as gravações do seu segundo álbum.

«Um álbum só» pensei eu, ponderando na longevidade e limites de aquela relação.

Uma vez, uma pessoa que o tempo afastou de mim confessou-me que por muitos anos que passassem nunca se esquecera da primeira vez que dormiu com o Dark side of the moon, dos Pink Floyd. Lembro-me até, na altura, de ter seguido as suas indicações e de me deitar, na escuridão, à espera das imagens.

Não resultou comigo, mas quando, essa noite, deitei-me com Grace vi o meu corpo ondular na semi escuridão e a transformar-se ao som dele. Ter consciência que algo nos mudou e reconhecer essa mudança em nós é uma das tarefas mais prazerosas, se não morosas, porque estamos em constante mudança.

Isto não será mais que um exercício de autoavaliação, com conhecimento do ponto de origem, de como essa noite me mudou.


PARTE II

Hoje, 2013, sete anos desde aquela primeira tarde, sei a importância do reconhecimento que nunca irei entrar em contacto com ele. Vejo essa maleita na minha vida amorosa, onde o que nunca aconteceu tem mais peso que a realidade. Sinto-a nos meus planos para o futuro, mais importantes que a sua concretização, por vezes. Em toda a parte, corro atrás de algo que não acontecerá.

Ele é isto para mim: o impossível.

Quando o escuto é o mesmo sentimento que sinto quando penso no amanhã. Quando penso em alguém. O sentimento é o mesmo. Aquela perceção de que estamos a tentar agarrar algo que não está lá. Imagino que seja assim que uma pessoa de fé se sinta – sans desejo.

(pausa)

E novamente regresso às referências religiosas, talvez por não conseguir separar completamente a minha perceção do feminino do modo como me relaciono com a figura trágica de Buckley.

Eu penso nele e penso na sua voz e ela carrega o masculino e o feminino. Não obstante a sua figura frágil e postura introspetiva, é a sua voz que me fascina e impulsiona este exercício. Quando penso numa maneira de explicar isto, lembro-me do documentário que regista a produção de Grace, em que ele afirma que só queria ser um chanteuse como Piaf.

São momentos como esse, que parecem ser tão constantes na sua persona pública, que justificam, em parte, a minha ideia. Gostava de poder apresentar teóricos e autoridades que falassem por mim e que falassem do assunto melhor que eu, mas sou contra isso.

A primeira vez que ouvi o Jeff a cantar The other woman, originalmente de Nina Simone, foi uma das primeiras vezes que ouvi um homem cantar uma narrativa feminina de um modo completamente natural e crível. Lembro-me que, na altura, a sua versão mexeu muito comigo, porque, olhando para trás, eu era a outra mulher ou uma delas. E lembro-me de me sentir confortado na sua voz, no tom magoado tingido de ciúme, ao reconhecer que nunca seria bom suficiente para ganhar aquela batalha.

Que foi o que aconteceu.

As paixões de Simone, Piaf e até Judy Garland são, ainda hoje, alguns dos meus instantes preferidos da voz de Buckley. Há um momento em particular, numa das interpretações ao vivo da Hymne à l’amour, originalmente cantada por Piaf, em que não consigo deixar de me apaixonar – por ele, por outro ou pela simples e dolorosa necessidade de amar. Lembro-me de uma vez, de destroço fresco nas mãos, descer a Avenida da Boavista toda a pé, rumo à praia, e de ouvir esse momento na sua voz e de olhar para o modo como a copa de uma árvore cortava o sol e de pensar que estaria, eventualmente, pronto para caminhar no sentido oposto. Lembro-me que a sola das minhas sapatilhas não sobreviveu a caminhada.

Leonard Cohen, Bob Dylan e Morrissey são os nomes que me surgem quando tento justificar mentalmente o argumento contrário da voz de Jeff. Também estas narrativas lhe são familiares e tornam-se familiares na sua voz. If you see her, say hello, de Dylan, I know it’s over, dos Smiths e, claro, Hallellujah, de Cohen, são todas exemplos e memórias de como a voz de Jeff Buckley era capaz de comunicar com ambos os sexos de igual para igual.

Ele é o homem mais bonito que nunca irei conhecer e a mulher mais perfeita que nunca poderia acarinhar. Resta-me, ainda hoje, aquilo que conheci primeiro e em último: a sua voz.


EPÍLOGO

Nunca irei conhecer Jeff Buckley e toda a minha relação parte e reside num perpétuo salto para o passado. Isto não é nada de especial, nem de único, não fosse a necessidade física que eu sinto, quando me deito, às vezes, de o conhecer. Como se a felicidade fosse só alcançável com esse encontro e a impossibilidade de tal acontecer justifica o meu estado natural. Mas se eu quisesse, conseguia justificar toda a minha vida em função dele, por isso não me tomem muita atenção.

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