Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

Purgatório

Disse simplesmente, «segue-me». Apontou para a entrada de um corredor longo e apertado pelo qual eu deveria avançar. Aconselhou-me a deixar à porta toda a esperança. Assim o fiz, e entrei.
Virgínia seria o meu guia. Esperara «uma eternidade» por mim à porta do teatro — reprendera-me mal eu chegara. O baton carregado, o eyeliner, o rouge desbotavam-se desde tempos ancestrais. As pernas musculadas não eram depiladas há séculos, já arranhavam as mãos. E a saia justa, o xaile e os saltos, a peruca platinada, tudo já legado démodé de uma Idade passada. Mas estava deslumbrante, nossa senhora. Como a admirava. Virgínia encantava-me perdidamente.
Segui no seu passo, descendo o corredor. As paredes, o chão, o tecto eram de um escarlate tão vivo como a carne — esse tom a que chamam encarnado, tão incandescente que fere os olhos. Pequenos candeeiros espalhados pelo tecto alimentavam a fraca luz que fundia sobre a passagem. Fora uma belle époque que perdera o lustre e a música. Agora só ia ao teatro quem procurava o segredo de Virgínia.
Levou-me pelo corredor circundante durante horas. A luz diminuía mas as paredes rubesciam com o nosso andar e o ar pesava-me cada vez mais no peito. Depois, à esquerda, surgiu uma porta. Parei. Virgínia voltou-se e perguntou-me se queria que a abrisse. Outras centenas de portas surgiriam ao longo do nosso caminho, avisou-me. Durante o percurso só poderia abrir três — e apenas três.
Não sabendo o que escondiam as portas, esta ou qualquer outra, pedi-lhe que sim, que a abrisse.
A entrada dava para um quarto amplo: ao fundo, uma larga janela cheia de breu, só rompido por um longínquo foco de luz preso no firmamento. Havia fardos de palha em escada até ao tecto, palha revolvida por todos os cantos do quarto, e num desses cantos uma tribuna onde três juízes solenes (e também cobertos de palha) elaboravam um douto julgamento. De entre a palha ergueu-se uma virgem semi-nua, e à volta dela um padre que, incessante, farejava e lambia as suas pernas. A virgem aproximou-se dos juízes, preparando a sua confissão.
Há sete anos, durante o verão, o padre veio à casa de minha mãe enquanto ela trabalhava no campo. Disse-me, premente: «Deixa-me conhecer-te carnalmente». Respondi-lhe que sim. Era virgem nessa altura. Não teria mais de catorze ou quinze anos: ele deflorou-me neste celeiro. Não só consenti o pedido como também o desejei.
Depois disso, continuámos a encontrar-nos nos prazeres da carne. Tudo se passava em casa de minha mãe; ela sabia disto, e também o consentia.
Depois, em Janeiro, o padre deu-me em casamento ao homem de quem sou hoje viúva. Mesmo depois de casados, o padre continuou com frequência a visitar-me à noite, durante os quatro anos que durou o nosso casamento. E o meu marido sabia-o, e consentia-o.
De tempos a tempos ele perguntava-me, «O padre já o fez contigo?», e eu respondia-lhe que sim. E o meu marido dizia, «No caso do padre, tudo bem; mas ai de ti que tenhas outros homens».
Os juízes pareciam desagradados. A virgem suspirou fundo.
Uma vez o padre disse-me: «Uma senhora que se deita com o seu verdadeiro amor é purificada de todos os seus pecados. A alegria do amor torna o acto inocente, porque ele procede de um coração puro». Percebi o que ele quis dizer. Com o padre eu tinha prazer e, como tal, o que fazíamos não desgostava a Deus. O que fazíamos não era pecado.*
Os juízes bateram o martelo na mesa. Era demais.
De rompante, o padre saltou e mordeu-lhe o fino tornozelo. A virgem deu um grito de susto e voltou a enterrar-se no mar de palha. O padre seguiu-a, ávido de luxúria.
Ficaram então os juízes a remoer na imoralidade de tudo aquilo. Sabia que o exame demoraria a consulta de toda a jurisprudência, e por isso voltei-me e fechei a porta.

Ao longo da descida, Virgínia reparou que a ansiedade me ia roendo o ânimo: que arfava baixinho, que tremia nos passos que dava, que cheirava o meu próprio medo e me enojava. Esperou então que a alcançasse e, olhando-me nos olhos, beijou-me a face. Levei os dedos à flor molhada dos seus lábios, mais por fascínio que por qualquer outra resolução; ela consentiu-me a indelicadeza. Isso acalmou-me. Continuámos a andar, e eu voltei a segui-la à distância devida.
As portas sucediam-se às dezenas como se não revelassem nada. Nunca as poderia abrir a todas, e assim convenci-me que nada guardavam. Mas chegou uma porta em que o sangue escorria do puxador de laque dourado. Estivesse o líquido espalhado noutra superfície e não o teria distinguido: chão, tecto e paredes do corredor era como se fossem banhadas por ele.
Virgínia abriu a porta.
O chão estava repleto de almofadas de mil arabescos. Do tecto pendiam sedas de cores vibrantes. Aos meus pés, à entrada, vi brilhar duas lâminas de aço: aqui um sabre, ali uma adaga. No fio de ambas as peças havia sangue, ainda fresco. No fundo do harém, sob uma varanda aberta para o céu negro apenas maculado pelo brilho daquele astro solitário, estava uma cama também coberta por muitos véus. Dançando à leve brisa da noite, resguardavam o semblante de dois homens, nus e feridos, que faziam amor como se num derradeiro esforço pela sobrevivência.
Contorciam os torsos esculturais rompidos por cicatrizes recentes, soltavam gemidos de dor e prazer. O amante mais lesto pressionava gentilmente o peito que o cingia e, beijando-lhe as feridas, penetrava o seu rival. Este por sua vez, vencendo as dores, tomava nas mãos as coxas firmes que o placavam e, voraz, puxava-as contra si, obrigando o outro a ceder. À força de braços, rodava-o pela cintura, esmurrando-o no estômago, mordendo-lhe o ombro e o pescoço, imobilizando-o. Os dedos percorreram e envolveram o pescoço do amante dominado. Sentia o latejar das veias na palma da mão. Tinha ali a sua vida, frágil, perdida no fechar do punho, vulnerável, (valeria mais morrerem naquele instante); mas ainda o recebia erecto e pulsante dentro de si. Não compreendia aquele mistério. A ferida aberta no dorso lembrava-o da dor. Extático, pingando suor com a cor do sangue e o cheiro do sémen, galgava o desejo. Quando o dia nascesse seria o fim de ambos. Pensou serem breves as horas da noite. E, sedento dele, mordeu-o nos lábios.
Virgínia, vendo-me absorto naquela contenda, levou-me à varanda do quarto. Sob o ténue luar do foco, vi em baixo a terrível panorâmica de um campo de batalha. À esquerda, largos esquadrões levantavam o estandarte do Sabre Dourado; à direita, na linha ofensiva do Império, os soldados envergavam o escudo negro com as adagas cruzadas. Dois poderes moribundos sepultar-se-iam naquela planície. A matança a seus postos: todas as vidas eram indispensáveis. Mal o dia nascesse, soariam as trompas…
Tinha a mão ensanguentada quando larguei a porta fechada atrás de mim.

O desânimo toldava-me os sentidos. Tinha passado certamente mais de um dia inteiro nos círculos daquele poço sem tempo e sem fim. O corpo não se esgotava de cansaço, mas toda a esperança que eu pensava ter abandonado à entrada expirava agora lentamente e senti que me deixava para sempre. O corredor era uma braseira, mas Virgínia nem dava por isso. Santa ou bruxa, não conseguia perceber. Disse-me então, «já falta pouco». As portas tomavam formas bizarras. Ouviam-se mil gritos misturados em outros tantos gemidos. Mas, perdido no meu sofrimento, nada me interessava. De uma das portas senti o ar mais leve e fresco. Pedi a Virgínia que a abrisse.
Mais fresco, sim; mas o quarto tresandava à morte.
Era um deserto coberto de cinzas. À minha frente, sentado numa mesa à janela, um vulto escrevinhava frenético entre sopros de cigarro e goles de whisky. Os poemas que lacerava no papel eram intercalados por profundos e tristes suspiros. Quando terminava, levava as mãos e o cigarro nelas preso à cabeça e esperava. O vento que soprava dessa noite sem luar embalava as folhas e os poemas pela imensidão do quarto até aterrarem, invariavelmente, na ponta incandescente do cigarro. O fogo que logo consumia o papel era azul e frio. As palavras desfaziam-se em cinzas.
Esta operação repetia-se numa cadência de interminável sofrimento. Quantos poemas teria ele escrito para produzir as dunas de cinza que agora cobriam o quarto.
Do fumo do papel queimado, porém, vivia o seu único alento. À luz da singular estrela da noite, o fumo tomava a forma de um rapaz franzino e loiro. A aparição espectral ganhava vida, e abraçava o poeta com a suavidade dos seus finos braços, afagando-lhe a cara. Enquanto o seu espírito não se esvanecia no vazio, assim ficavam em perfeita comunhão e felicidade. Mas durava um breve segundo. E o poeta voltava a reunir todo o seu sofrimento e de novo o despejava no papel.
Senti-me tentado a consolá-lo com uma palavra falada, salvando-o da palavra escrita. Caminhava na sua direcção quando tropecei num objecto estendido no chão, enterrado nas cinzas. Sacudi a primeira camada, nada vi, à segunda descobri um braço inerte e gelado. Fui destapando aquilo que percebi ser o corpo morto do mesmo rapaz que o espectro personificava. Os seus lábios estavam murchos. Virgínia contou-me que havia morrido de sede, sufocado pelas cinzas. Por esta altura a luz dava novamente ao fumo a aparência fantástica do rapaz que abraçava e afagava o poeta. Este que eu tinha nas mãos era a sua memória: o espectro havia-lhe roubado o fôlego. Voltei a cobri-lo com o manto de cinzas e virei costas ao poeta.

Então Virgínia disse-me: chegámos. O corredor desembocava num grande portal de ébano, ladeado por dois Atlas de bronze que suportavam enormes esferas admiravelmente polidas. Abrindo-o de par em par, com esforço, entrei finalmente no auditório do grande Teatro. À minha frente, por entre a escuridão, voava a luz do foco solitário que firmava na tela um círculo prateado, a estrela que velava todas as portas e todos os quartos. Virgínia mandou que se iluminasse a sala e eu pude ver todo o esplendor à minha volta. As galerias serpenteavam formando nove largos círculos abertos em camarotes sobre o abismo. Entre os milhares de personagens que se abeiravam das varandas, rapidamente isolei as figuras dos juízes, dos guerreiros e do poeta. Todo o teatro era esculpido em elegantes baluartes, arcos, espirais e agulhas que de tão intrincados e rendilhados em pedra, vidro e ferro transformavam o fino em bojudo, o gótico em barroco. Um lustro titânico em lâminas de cristal e jade pendia do tecto e enchia o auditório de luz verde.
Virgínia conduziu-me ao meu lugar na plateia já preenchida de espectadores. Todos sem distinção, homens, mulheres, jovens, velhos, trajavam de igual — fato preto, camisa e gravata, idêntico uniforme por todas as filas e cadeiras até ao palco. Também eu vestia fato preto, camisa e gravata, o traje de um qualquer dia de trabalho que nunca havia completado: seguira o chamamento de Virgínia no regresso a casa, sem hesitar uma preocupação. E agora ocupava o lugar que me cabia nesta catedral aterradora.
As luzes extinguiram-se novamente. O círculo de luz na tela abriu-se lentamente e iluminou todo o enquadramento. A projecção, longamente aguardada por todo o auditório desde o início da Criação, teria finalmente a sua sessão de estreia.
Plano aberto. Numa cidade do futuro, hordas de escravos são guiadas diariamente com a precisão dos relógios numa ditadura de correcção, até que alguém que se atreve e rompe a ordem das coisas, foge. Esta alma que cai em perdição, embrenha-se pelos caminhos subterrâneos da cidade, desce ao seu próprio âmago. Até que por fim descobre uma gruta secreta cheia de luz e paz. Nela, outros escravos evadidos e almas sofridas veneram uma figura sagrada, bela, de pele branca imaculada. Está nua, a Virgem, e nus prostram-se os escravos ao vê-la, beijando-lhe os pés, lambendo-lhe os dedos. Das arestas do seu corpo escorrem gotas de leite, dos seus seios brota o mais doce mel. Ao provar do seu corpo, os escravos de imediato rejeitam a sua condição, renegam as grilhetas que os atam, o fato preto, a camisa, a gravata, e assaltam a Virgem cobrindo-a de lábios. Libertam-se pela orgia, comungam todos da carne e do leite na união das almas pela união dos corpos. A utopia é plena. A cidade rui ao arrepio do orgasmo que a sacode das profundezas. O ecrã enche-se de luz.
Uma sombra surge contra a tela. Rasga-a de alto a baixo e pela fenda sai Virgínia, nua, branca, resplandecente como o foco de luz. A plateia ao vê-la assim revelada irrompe em êxtase. A ansiedade invade os corpos. Apartam-se os nós do pescoço, os botões, as calças. Soltam-se gemidos de libertação. Perco-me no delírio e nada mais vejo.
Ouço: o meu sangue correr; o vibrar da carne que me envolve; e as colunas do Teatro estremecer com a expectativa.

* Adaptado da confissão de uma camponesa acusada de heresia perante o tribunal da Inquisição em França no início do séc. XIV. in E. Ladurie (1978).

(Pedro Leitão 2013)

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