Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

Artigo primeiro

Olharam então todos uns para os outros. Ao fim de intermináveis horas de discussão, de debate, e de apresentação e consequente sustentação de argumentos dos mais vários, desde o silogístico ao puramente imbecil, depois do que chegaram a parecer dias numa sala fechada e, por isso, de paredes lambidas de fumo de mais de quinhentos defuntos cigarros —era, no entanto, imperativo que a sala se fechasse, dissera o presidente da mesa logo ao início e sabiam-no já todos os presentes—, entre fumadores de tabaco muito fraquinho, chupadores lânguidos de Montecristos ou pessoas que passivamente tossiam, sentiam todos os delegados que se encontravam na sala, vindos com especial carácter de urgência de virtualmente todas as partes do mundo, que se havia atingido uma espécie de plataforma de entendimento —dedicou-se, aliás, a última parte da sessão a tentar decidir se lhe chamar plataforma de entendimento ou acordo tácito de interesses, tendo acabado por ganhar a primeira por uma vantagem irrisória de quatro votos— e que era agora possível, dentro de uma série de limites que foram acordados mais por cansaço do que por outro motivo qualquer, declarar como terminada a assembleia-geral-extraordinária e anunciar a decisão final, em directo, às rádios e televisões que esperavam há cerca de vinte horas do outro lado da porta. Terminada a reunião cada delegado de pronto esqueceu os metros de notas que foram tiradas, entre apontamentos de argumentos bons e por isso de obrigatória refutação e diagramas esquemáticos de homens a passearem cães, que um dos representantes sul-americanos tentou desenhar para acabar por sugerir, rasuras e metasignificações depois, um homem que passeava aquilo que tanto podia ser uma zebra como o seu imediato colega do lado esquerdo. O presidente da mesa correu um último olhar em volta da mesa, pronunciou oficialmente, para o redactor da acta, os procedimentos como terminados, e releu uma derradeira vez a declaração concordada que seria imediatamente lida aos senhores jornalistas e restantes membros do corpo diplomático presentes da sala de imprensa. A questão que haviam estado a discutir era, com toda a propriedade, de grande importância, e à movimentação política e económica que originou juntava-se, por razões óbvias, um círculo de influências dos sectores artísticos e da estética de carácter filosófico em geral. Quando se abriu a porta, e por ela saiu metodicamente o presidente da mesa, escolhido em anterior assembleia-geral para discutir uma provável —e agora confirmada— assembleia-geral-extraordinária a ocorrer em data imprevisível e preferencialmente na primavera, a inquietação tropeçou-se em disparos de máquinas fotográficas e entrelaçar de sinais de microfones, que se estendeu ainda por um ou dois minutos, até que o alto-comissário para questões estéticas —assim se chamava o presidente da mesa nos rodapés das televisões— gesticulou um silêncio instantâneo com um movimento da mão direita, confirmou-o, e anunciou, como aliás era esperado, ter sido competente o decorrer da reunião, e disse simplesmente, através de um canto de um olho, Dou oficialmente por encontrada a pessoa mais bonita do mundo.
As pessoas temiam uma coisa deste género. É óbvio que a ideia de beleza não era uma tão estrangeira a ninguém e toda a gente acabava por viver, com mais ou menos empenho, à procura de coisas onde pudessem perder os olhos, em que lhes fosse claro que os podiam estender, ou melhor, que os deviam estender, e que passassem a ser, por isso mesmo, reflexivamente ainda mais bonitas pela ou por causa da luz de dezenas de dois olhos. E é também certo que na maior parte dos casos, porque resulta substancialmente mais fácil, essas coisas que as pessoas tomavam por bonitas não eram tanto coisas como eram antes pessoas. Afinal, nem os quadros nos olham de volta quando de topo olhamos para eles —isto é evidente e por isso mesmo obviamente mentira—, nem logicamente se iluminam de mais bonitos se por azar sorriem para nós ou nos ignoram de ombros e costas —é neste caso, e neste caso unicamente, que nos convencemos de ser beleza aquilo que olhamos, porque só algo intrinsecamente belo sabe que o feio é indigno de si e indigno dos seus olhos, e merecedor tão-só dos seus ombros e das costas—. Esta predisposição das gentes de tomar apenas as pessoas como bonitas, e as coisas meras respirações boas de pessoas anónimas —dignas quanto muito de bocados de parede e de vitrinas de cristal—, era clara principalmente a esses mesmos estranhos que se dizem amantes de música, ou apreciadores —barra conhecedores, subentende-se— de quadros, de tectos, de blocos de pedra, de vinhos, de prédios, e de ideias de árvores, a quem tinha sido pedido, como já se disse, que interrompessem as suas vidas por uns dias para que se encontrasse, em assembleia-geral-extraordinária, e se declarasse oficialmente por encontrada, claro está, a pessoa mais bonita do mundo. No entanto, e como foi profusamente desfiado durante semanas em editoriais de jornal e reportagens de televisão, e em dezenas de ensaios de pronto publicados sobre a beleza das gentes —chamava-se, aliás, A Beleza das Gentes o que vendeu mais de todos eles, e de todos o pior escrito—, saber-se com carácter oficial, e com o selo branco de anuimento do presidente do mundo —que à altura se encontrava de férias, referiam os jornais, e por isso incontactável— que havia sido encontrada e que, por isso, se confirmava a existência debaixo do sol de uma pessoa mais bonita do mundo, não era nada de que o mundo estivesse à espera, nem nada que ao mundo fizesse especial falta. Aliás, era incluso uma coisa que trazia ao mundo uma série de problemas que ao mundo nem faziam grande jeito e que se previam lixados de resolver. A verdade, como já foi dito, é que todos levavam o belo nas curvas dos olhos, e que esse belo eram por mais fácil invariavelmente pessoas, mas as pessoas que um fechava nos olhos eram estranhas às pessoas que outro fechava nos olhos, e assim norma, e por isso, salvo raras excepções de capas de revistas ou de centerfolds, o mundo não se atropelava em achar a mesma pessoa bonita —ou tesuda, como chegaram a frasear algumas mancheias de jornalistas—, porque não havia lei alguma que dissesse o mais bonito quem era. Três dias depois do anúncio oficial, uma lei havia que dizia o mais bonito quem era.
Lia-se no texto da lei, que havia sido escrito numa ginástica de panfleto e de abafamento de gritos ―para que toda a gente percebesse, afirmavam os analistas, visto que se tratava duma questão premente e visto que nestes assuntos da beleza a maior parte das pessoas é afinal imbecil, ou ignorante, escolha-se o mais insultuoso― que após várias rondas de negociação e de uma ou duas cedências mais relevantes exigidas pelos delegados da mesa que tinham mais dinheiro ―e por isso mais quadros e por isso menos dinheiro―, e ainda após uma derradeira revisão do rascunho pelos representantes das escolas de bem escrever, a maior parte deles poetas e todos de entre eles maus, que milimetricamente mediram cada vírgula e que trocaram meia dúzia de palavras por outras tantas de igual valor ―mas que soavam melhor―, tinha-se chegado por fim a um consenso em relação ao texto a ser fixado para ser assinado de imediato pelo presidente do mundo, ainda de férias mas disponível para homologar por telefone, e por isso para entrar em vigor com carácter de urgência nos seguintes termos ―e começava assim―: estatutos gerais para a regulamentação dos padrões de avaliação estética (lei da pessoa mais bonita do mundo), parágrafo, artigo primeiro, há uma pessoa no mundo que é mais bonita que todas as outras. Um dos membros da mesa terá alertado para a pequenina ambiguidade da frase como está escrita ―não se sabe se a pessoa mais bonita o é que a soma de todas as outras ou que cada uma delas, mesmo as de olhos grandes―, mas tomou-se a imprecisão como uma coisa boa para atrapalhar os menos obtusos que se levantassem de fazer perguntas. Artigo segundo, qualquer manifestação pública, individual ou colectiva, que grite a pessoa mais bonita do mundo ser outra que não a que aqui se define ―ver artigos quarto a sétimo― será severamente punida em valores semelhantes ou equivalentes ao dinheiro dos bolsos ou aos olhos da cara ―qual deles valer mais―, e corresponderá a pena suspensa de prisão enquanto durar a vida da pessoa mais bonita do mundo, ou trinta anos ―qual deles acabar depois―. Artigo terceiro, mostras, por outro lado, de apreço pela pessoa mais bonita do mundo que resultem em aborrecimento ou arrelia da mesma serão presencialmente punidas com a truncagem das mãos. Adenda ao artigo terceiro, assiste à pessoa mais bonita do mundo o direito de sovar qualquém a incomode ou cause distúrbio ou obrigue a atravessar de lado da rua por força de ficar em paz e sossego. E nestes termos continuava o texto. Artigo quarto, apende-se a este decreto ―ver verso da folha― uma fotografia da pessoa mais bonita do mundo, para efeitos de ser mais fácil saber-se quem é. Ora esta questão da fotografia foi uma que trouxe problemas e foram dois os problemas que trouxe. Por um lado, sentiam os teóricos, os gestaltianos e os de ver as coisas aos bocados, assim como os filósofos, os teólogos e os mediúnicos, que a necessidade de uma imagem que desse verdade à pessoa mais bonita do mundo seria a negação de si própria, uma vez que a beleza transcende o mundo, o mundo extraverte a fotografia e, dois mais dois igual a cinco, como os vampiros, a beleza não pode ser fotografada. Este problema foi facilmente resolvido pelo presidente da mesa quando lhes pediu, de olhos estreitos, que por favor fechassem a porta pelo lado de fora. Agora o outro inconveniente viu-se mais atravessado de resolver. Pelos vistos a única fotografia que existia da pessoa mais bonita do mundo era uma muito líquida de contornos, tirada numa tarde de verão quando a pessoa mais bonita do mundo estava na esplanada de um café a tomar café por uma chávena de café. Toda a gente concordava que a fotografia era má, excepto os que a achavam ainda pior, e foi por isso que, em adenda ao artigo quarto, se escreveu ―em legítima encolhida defesa―: mais se afirma que a pessoa mais bonita do mundo não é a pessoa mais fotogénica do mundo.
A verdade, no entanto, é que à subtracção daquela, roubada em termos completamente esquivos e por isso assustada, qualquer outra fotografia em existência da pessoa mais bonita do mundo, fosse em carteiras de avós, ou em livros de turma, fosse nos papéis de poder conduzir ou nos restantes documentos, fossem elas polaroids de férias, ensaiadas ou não, repetidas ou calhares, a verdade é que todas elas, independente se desfocadas, amputadas de pernas ou de testas, maldispostas, desenquadradas ou só infelizes, eram afinal aquilo que eram, que era fotografias da pessoa mais bonita do mundo. Aliás, se houve outra altura em que se lhe podia ter sacado uma fotografia ruim, e poder-se-ia de facto estivesse presente alguém com uma máquina, foi no preciso instante em que a pessoa mais bonita do mundo desembainhou o jornal daquela manhã e viu, na primeira página, e na respiração gritada do todo da folha, uma consideravelmente monumental ―e monumentalmente má― fotografia dele próprio. Artigo quinto, não há de maneira nenhuma qualquer envolvimento ou imiscuição da pessoa mais bonita do mundo no processo de decisão ―ler actas da assembleia ou ao revés acreditar em nós―, e mais se confirma que de nada do que foi decidido, ou do que se faz regra pela presente lei ―ver presente lei―, teve a pessoa mais bonita do mundo prévio conhecimento. E a verdade é que é verdade que não teve. Isto é tudo mais provavelmente um erro, disse ele às primeiras horas do dia em que passara a ser, por especial garatujagem do presidente do mundo ―e com os cumprimentos da sua mulher, que aprovava com entusiasmo― a pessoa mais bonita do mundo. Quer dizer, ouvia-se o desgraçado de ombros no chão, eu sei que tenho as cores certas e tudo, e que transluzo uma luz interessante quando o sol me bate pelo lado certo, e me abana as funduras dos olhos numa fervência de lagos, mas mesmo assim eu continuo a ter para mim que isto é tudo mais provavelmente um erro e enquanto engano é dos grandes. Em verdade existem vários os que duvidam ―especialmente os filólogos e de entre eles os mais recurvos― terem sido estas ipsis verbis as palavras que ele terá utilizado quando falou, ainda de cara encolhida, aos jornalistas que de pronto se lhe puseram à porta de casa, pavloviamente a postos e com a missão de recolher, reproduzir e ampliar qualquer e o primeiro depoimento que se conseguisse arrancar ―de forma completamente espontânea, atenção― ao coitado mais bonito do mundo. E não foram de facto estas as palavras que ele utilizou. Contudo, cedo decidiram os editores dos jornais, redactores-chefes e correctores gramaticais ―e ortográficos― que a pessoa mais bonita do mundo precisava de palavras que se lhe parecessem, e frases que lhe fossem dignas da linha dos queixos e do rebordo dos olhos e por aí adiante, de tal maneira que à porta de casa dele se punham os jornalistas, que lhe gravavam as respostas e que as passavam pelos fios dos braços até às carrinhas, onde estavam aqueles que se acertou chamar os substituidores, ou seja, indivíduos especialmente treinados ―a maior parte deles poetas e todos de entre eles maus― para lhe pegarem na voz e lhe trocarem a ordem, e o que mais fosse preciso, para que parecesse melhor. Convém talvez dizer, ainda que de passagem, que isto de encher as notícias de lâmpadas acabou alguns meses depois por bifurcar para outras partes dos jornais, e por isso qualquer pessoa que rebentasse na guerra era uma provocação de vermelho, entre mais demências e outras manchetes anormais onde se lia Avião aninha em montanha e morrem trezentos, Caves multiplicam-se de lagos nas maiores cheias em dez anos e ―aquele que mais irritação causou, e não admira― Mulher é mordida por cobra e fica muito quieta para sempre. Logo, quando a pessoa mais bonita do mundo disse, ainda meio enevoado, Isto é tudo mais provavelmente um erro, o que ele disse de facto foi Não, eu parece-me é que está tudo parvo.
Adenda ao artigo sexto, isto é mais definitivamente não um erro. A pessoa mais bonita do mundo é a pessoa mais bonita do mundo, ponto final, fim de discussão ―dizia o texto da lei―. Não adianta que ele diga que não é porque é. Ora os juristas e os legisladores que, importa lembrar, foram os únicos que não tiveram um dedo na redacção da lei, chegaram-se de primeiro à frente que este acrescento em particular, para não falar do resto da coisa, parecia ter sido escrito por uma atrapalhação de miúdos, e que chegava falar um naco com gente como eles, que sabem falar a língua do pó, para se ficar a saber que entre códigos civis, penais, tratados de acabar guerras, de como comprar casas e de como acabar casamentos, dividir filhos e deserdar netos, nunca em circunstância nenhuma se encontrara nesses cemitérios de frases uma lei pela qual sim é sim e sim é sim porque sim. Não é nesses termos ―somavam eles― que se diz às pessoas o que fazer. No entanto, é completamente nesses termos que se diz às pessoas o que fazer, e nesse tom de voz marginalmente mais grosso que têm os irmãos mais velhos. É isso precisamente ―arriscou um advogado que só o era desde ontem, e por isso ligeiramente menos embirrado que os outros― o que é uma lei: uma coisa, isto é, algo, é porque é. Só que desta vez, desdobrou-se o moço em hipóteses, eles ou não podiam ou não estiveram para se dar ao luxo de demorar meia hora a dizer o que queriam de facto dizer, e daí o atrelado ao artigo sexto, naquele fraseamento de já saber as cores até dez, de que ele é a pessoa mais bonita do mundo porque é e fecho de conversa. Daí que ainda que ele próprio, a pessoa mais bonita do mundo, e apesar dos espelhos e dos olhos que roubava sem querer e dos tropeções de que era inocente, viesse dizer que não, que se tinha atravancado tudo de cabeças e que ele não era, nem pouco mais ou menos, a pessoa mais bonita do mundo, um bocado da lei havia agora que falava mais alto que ele. Artigo sexto ―antes da adenda―, regista-se que a pessoa mais bonita do mundo se chama ―e aqui podia ler-se o nome dele―, é portadora do documento de identificação ―e aqui fixava-se o número, que por azar era o mesmo que o seu número de telefone, que à conta disso nunca mais se calou―, e reside, para efeitos de morar lá, num prédio de habitação na rua ―e aqui escrevia-se o nome da rua dele, que por outro azar era igual ao nome da rua dele―. Foi por isso que quando ele pediu, na manhã do dia seguinte, a mesma de se ter feito o acrescento, aos senhores jornalistas e restantes membros da imprensa aborrecida que por favor lhe saíssem da porta de casa, eles delicadamente declinaram e deixaram-se estar nas posições em que estavam. À manhã do dia terceiro depois da lei puseram-lhe encostado à parede do prédio, por encomenda sua, um polícia forrado de braços e de bigodes e com uma faca de cortar mãos. Ninguém se tinha satisfeito nem quanto muito confortável com esta história de cortar as mãos às pessoas, e o primeiro a achar isto tudo se calhar um bocadinho demais era o próprio ele o mais bonito do mundo, por isso quando o polícia lhe perguntava, já em posição de lanhar, se esta pessoa por enquanto ainda possuidora de mãos o estava de facto a desassossegar, ele tendia a responder na maior parte das vezes que não. Mas só na maior parte das vezes. Coisas têm de ser feitas quando têm de ser feitas, comentou definitivo o alto-comissário a propósito de uma marcha de jornalistas irritados, justapostos e consonantes em defesa do movimento emergente dos colegas neomanetas, e quando perguntaram ao alto-comissário porque é que tinha de ser, porquê esta selvajaria de se resolverem as coisas com facas, e lhe subiram a voz de vincos de querer saber porquê, a melhor maneira que ele arranjou de responder foi atar um nó numa artéria do pescoço e aturar ―com efeitos imediatos e de forma permanente― uma paragem respiratória.
Interessa talvez apontar o que foi da vida do rapaz depois de se ter passado o que se passou. Artigo sétimo, a pessoa mais bonita do mundo é-o em regime de ser para sempre, e qualquer áltero cenário que desrespeite o que se estabelece neste artigo ―ver este artigo― é consequentemente mentira. Ora mais uma vez se chegou à frente o povo do pó, e tossiu um raciocínio que tinha tanto de arrítmico como tinha de justo. Abria-se, afinal, um precedente: tinha sido redigida, promulgada, e depois revista e aumentada a primeira lei que por um princípio fundamental de mau feitio não admitia porque não admitia emendas. Este decreto é tão bom como um buraco negro ―disseram eles―, e vai acabar eventualmente por se engolir a si próprio. Mas as pessoas que escreveram a lei ficaram-se de brusco tão surdas como a lei já o era, e por isso nunca mais ninguém falou neste assunto. A verdade é que também poucos foram os que se incomodaram com a lei como estava escrita, e ao fio de mais ou menos tempo, entre os que concordavam de olhos abertos e os que só assentiam de ombros, toda a gente acabou por admitir que sim, que podia ser, que ele era a pessoa mais bonita do mundo. E foi precisamente no dia em que o derradeiro antipático desistiu do último bocado de dúvida que ainda restava, e o mundo se teve perigosamente unânime por um instante ―e por isso incrivelmente instável―, que se puseram os olhos todos numa específica fotografia em que se via a pessoa mais bonita do mundo ao lado de alguém que parecia, para todos os efeitos, ainda impossivelmente mais apetecível e que brilhava uma luz ainda mais bem acabada. Sabia-se sobre tal pessoa, especulavam baixinho as subcaves das revistas, que vivia de muito recente em casa do rapaz, ou porventura falava-se em duplicações de verdade se se dissesse que morava lá de muito mas mesmo muito recente, visto tratar-se da casa nova que o rapaz tinha acabado de comprar ―com tectos altos e as paredes alinhadas de espelhos― a alguém que, porque só concedeu vender-lha ao fim do segundo telefonema, e quase três minutos estendeu-se cada um deles, resumiu-se no fim do negócio não só sem a casa mas também sem as mãos. Isto de aparecer outra pessoa a desinquietar o mundo não era, como provou quase de imediato qualquer teórico da escola de ter os olhos abertos e de facto reparar nas coisas, nada de que não se estivesse já à espera. E os dois argumentos que lhes serviram não eram mais do que sintomas do provavelmente, e eram, por isso mesmo, verdades absolutas. Em primeiro lugar, a beleza atrai a beleza. Está amontoadamente documentado, por norma nas mesmas subcaves onde se revelam fotografias falsas, que pessoas com bom aspecto só sobrevivem sem faltas de ar ou falência espontânea de órgãos dentro de campos gravitacionais de gente com bom aspecto, e ainda que as consequências medico-desastrosas de alguém positivamente bonito se ter, por mais que certo acidente, no meio de gente feia nunca se terem provado, a verdade é que tal cenário nunca aconteceu, ou então nunca foi registado, o que nos obriga a considerar os efeitos evolucionistas que tal experiência poderia provocar, isto é, a extinção de gente gira para sempre e a criação de um mundo onde toda a gente parece que acabou de se levantar. Tudo isto é, obviamente, falso e, portanto, é mais provavelmente verdade. Agora o outro argumento é consideravelmente mais forte. É um facto inegável que as pessoas não sabem o que querem, o que leva a que haja quem diga que o maior problema das pessoas é que há pessoas. E o que aconteceu aqui foi o que continua repetido a acontecer, e foi que as pessoas acabam todas as vezes por se cansar das coisas boas. É por isso que vamos ver o mar e voltamos sempre para casa, e nunca nos perdemos tempo que chegue a aprender a respirar água, nem montamos vida ao lado dos peixes, e é por isso igual que ninguém fica quieto à espera que uma árvore cresça, e se faça ramos.
Ou seja, quando se cansaram todos da pessoa mais bonita do mundo e a quiseram trocar por outra que estava ao lado, uma lei havia que já sabia como é que o mundo funciona e que disse não se poder fazer nada a propósito de mudar isso. E de súbito toda a gente, principalmente aqueles para quem isto tinha sido sempre indiferente desde o início, se complicou de protestos numa desarrumação de braços no ar, e se levantou de berros que isto não estava certo, que era até um bocadinho parvo estarmos por lei a achar alguém a pessoa mais bonita do mundo quando já sabíamos que o não era, que era só um indivíduo medíocre quando posto ao lado da pessoa ao lado ―infinitamente superior de onde quer que se olhasse―, e que até o alto-comissário, não fosse ele um senhor tão fraquinho de corpo, havia de estar aqui a dar-nos razão e a desorganizar-se dos nervos como estamos o resto de nós. Fez-se até num dia de chuva, da parte da tarde, um cortejo que desfiou pelo menos meia cidade de centenas de pés, de tal maneira que se sentia tremer nas falhas do chão uma espécie de empenho provavelmente já em exageros ―apesar de se ter feito isto tudo sempre rua abaixo ao invés de rua acima―. Pouco tempo passou aliás antes que o porta-voz do novo movimento, da campanha pela beleza em termos, reclamasse com carácter de ser para quanto antes uma audiência com o presidente do mundo para que sua perfeição se chegasse à frente, interviesse e resolvesse de uma vez por todas esta palhaçada ―foi aliás esta a palavra que se utilizou à falta ou de melhor palavra, ou de melhor porta-voz―, mas sua excelência o comandante supremo encontrava-se, por indicação médica, em qualquer outro sítio que não o gabinete de tomar decisões ―preferencialmente a praia― e por isso qualquer declaração foi adiada e foi-o indefinidamente. E como ninguém podia esperar, nem esta complicação se permitia estender até ao fim das férias, ou para sempre ―qual deles acabar antes―, um dia houve em que acordou toda a gente e já o mundo se tinha revoltado, e já meia dúzia de entornados saltaram o muro do Palácio das Leis, e calcaram ilegalmente a relva do Palácio das Leis, e rasgaram um por um os estatutos gerais pelas pontas das mãos, e exigiram enfurecidos de vozes que se trocasse a pessoa mais bonita do mundo pela do lado e que tal se fizesse de imediato e se fosse possível à frente deles. O que foi de facto o que aconteceu.
Algumas coisas é preciso dizer a propósito do que se deu depois da revolta dos estúpidos. A pessoa mais bonita do mundo era, mesmo, a pessoa mais bonita do mundo. Só um número ridículo de observadores, entre os quais eu, se atravessaram para admiti-lo logo nos primeiros dias de ter entrado em vigor a nova lei, e a maior parte deles que o fizemos publicamente fomos, em tribunal civil e no meio de uma babilónia de facas, subtraídos ali mesmo dos olhos da cara. Além disso, a lei da pessoa ao lado acabou rasgada ela também poucos meses depois, e retrocada por outra e por outra a seguir, e de todas as vezes se pisou sem haver necessidade a relva do Palácio das Leis. Mais importa dizer que por outra a seguir e ainda outra depois. Quanto à pessoa mais bonita do mundo, da última vez que o vi ―que foi, para todos os efeitos, a última vez que o vi―, perguntei-te porque estás sempre a virar a cara aos teus olhos e a virar a cara aos espelhos, e disse-te dos espelhos que nunca te devolvem inteiro, e que ficam sempre com um bocado de ti para eles. Disseste-me que não, e disseste-o insuperável, disseste que não, que os espelhos te reflectem depressa, e perdi-me de tal maneira na tua maneira de palavras que pouco te disse que é mentira, pouco te mandei que te calasses, porque assumamos, que sabes tu de espelhos? Perguntaste-me de volta, E quem sabe? Raios te partam tu.

(Ricardo Braun 2007)

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