Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

ter medo (valter hugo mãe)

A data de 16 de março de 1996 diz-lhe alguma coisa?
É a data em que eu devia ter morrido.

Ainda se lembra, portanto, do poema em que escreveu essa data.
Sim, porque é verdade. Esse poema, «gordo e careca», alude à desgraça do amor. Está em sintonia com a ideia de que o amor é para os heróis, como escrevo neste novo romance. Eu achava que, das duas uma, ou ia perecendo ingloriamente sem qualquer correspondência ou morreria no dia em que alguém me dissesse que me amava.

A data corresponde a esse dia?
Esse foi o dia. A data corresponde ao dia em que alguém me retribuiu.

«devias morrer no dia dezoito de março de / mil novecentos e noventa e seis, como dizes que / vai acontecer, para que se acabe essa / imprecisa sentença que é a vida»
Sim. Isso é também, em muito, a realidade de a máquina de fazer espanhóis.

Curiosamente, reparei que 1996 é o ano da publicação do seu primeiro livro de poesia.
Foi um ano de drásticas mudanças. Um ano em que muita coisa na minha vida se definiu ou se me explicou.

Porque é que não morreu, se estava tão firmemente convencido de que isso aconteceria?
Nos momentos de alguma frustração - como o poema deixa entender - penso: se calhar teria valido a pena. Há como que um ciclo que se encerra nesse vida. Seria profundamente literário ter morrido tão jovem e sem obra.

[valter hugo mãe entrevistado por Carlos Vaz Marques no número de março de 2010 da revista LER]


Menti ao Carlos Vaz Marques quando perguntou pelos meus suicídios, bisbilhotando-me os poemas, escritos para serem pouco lidos e nada interrogados. Foi quando entendi que me atrapalho se questionado acerca do que digo nos versos. A minha poesia sugere muita exposição e não permite inquirição sob pena de mostra dramática da privacidade e convocação imediata do susto. Ando a pensar que a poesia acontece como expressão súbita que me leva até o que eu não sabia de mim, não saberia admitir. A prosa é mais cerimoniosa. Pede mais licença. Disfarça-me um pouco, não é tão repentina que me faça sentir roubado, acusado ou ridicularizado. Convidado para a Granta, pensei neste pedido de desculpas que tinha há muito para fazer. Menti por covardia. Dei umas voltas à retórica para não me confessar. Convidado para a Granta, achei piada que, de algum modo, aquilo sobre que seria interessante escrever se prendesse ainda, e por coincidência, com o mesmo poema: «gordo e careca», uma visão profundamente disfórica de mim, na qual me adio inteiro para uma próxima encarnação.
Nunca tive um gesto para a morte. Os meus suicídios passaram por anular-me, ter pesadelos de propósito, emagrecer tudo, esquecer até esquecer como recomeçar e recomeçar muito ao acaso. Como se pudesse nascer outro. Como se fosse obrigado a nascer outro. Em breves passagens, e por textos encriptados, falei sobre esta questão, aludindo a crises de crescimento na fase adulta capazes de redefinir prioridades, objectivos, medos e memórias. Foi-me urgente divergir, tanto quanto possível, e nunca entendi como as pessoas todas do mundo não se odeiam ciclicamente, não por estarem fartas da vida, porque viver é maravilhoso, mas por estarem fartas delas mesmas. Não acho nada normal que alguém se adore infinitamente. Só acredito na felicidade como epifania, só a felicidade muito de vez em quando respeita a desgraça que o mundo é e supõe. Ao menos enquanto a felicidade não for distribuída em partes iguais por todos, não pode deixar de ser bissexta, um esforço de glória rara e um pouco desrespeitosa.
Dei o meu próprio nome a um poema acerca de um rapaz com três mortes. Confio que a terceira morte e respectiva ressurreição marquem definitivamente quem sou e me definam perenemente o futuro. Acabei com a tristeza descontrolada, o que também pode acabar com a felicidade descontrolada mas não me merece lamento. À terceira longa tristeza da minha vida, o felicidário possível trouxe-me exatamente a transformação dos sentimentos em poesia e a necessidade de me problematizar quanto a medos, frustrações ou defeitos reconhecidos. Andava, havia muito, a pensar propor-me um modo de ser diferente, feito de uma robustez que não conhecia, uma robustez que podia apenas imaginar. Nessa altura, por coincidência regenerativa, o meu amigo e fotógrafo Pedro Guimarães surgiu com a ideia estranha de me retratar nu num espaço exterior. Era a carne do poema atirada à rua. Algo como perigar completamente, emudecer e apenas ser verso. Uma coisa entre ser pertinente e uma idiotice irresistível.
Por achar que os meus poemas sobre a vontade de morrer podiam pornografar a obrigação de respeitar incondicionalmente a vida, intitulei o meu livro de pornografia erudita, queria que a minha catástrofe fosse legítima e apontasse a aprendizagem definitiva de algo. Queria não ser capaz de reincidência. O que o Pedro Guimarães propunha era da ordem do recomeço. Rejeitar um corpo antigo, escondido, envergonhado por anos de sedentarismo e gula de doces e parvoíces. Assumir um corpo vulnerável, imperfeito, paciente lugar que me atura, e homenageá-lo, gostar dele.
Acabámos por fotografar numa tarde de domingo. Eu, nu, andando na movimentada Avenida da Liberdade de Braga, entre as quatro faixas de rodagem, em frente a uma pastelaria apinhada de gente dizendo que ia um maluco na rua. E os carros a abrandar e a buzinar brevemente, tão atónitos quanto de olhos esbugalhados, a ver o que parecia fazer sentido nenhum. Como se a nudez fosse desnatural, como se apenas eu tivesse um pénis, como se ninguém quisesse ter um pénis, ou pernas e braços, pele, uma cabeça mais ou menos baralhada mas honestamente interessada em descortinar o sentido da vida.
Lembro-me de um gorducho que me fotografava com o telemóvel daqueles ainda antigos e sem boa câmara. Gritava frustrado por não ter zoom.
Andar nu na rua não parece servir para grande coisa mas para quem, como eu, foi extraído de uma timidez atroz, habituado a adiar tantas vontades para que não chegasse o momento de algum confronto, dedicado a honrar família e nome, andar nu na rua, em Braga, é como acreditar em tudo de outra maneira, reclamar que a dignidade seja também outra coisa. É como recusar todas as esperas e bater de peito no mundo. Preparar, fazer. Lembrei-me muito das minhas idas à igreja em criança e de pensar que os padres podiam não ter cuecas sob as saias. Pensava que, ainda assim, os padres nunca seriam malcriados porque deus não lhes daria pila para que nunca pecassem ou morressem de a entalar no fecho das calças. Lembrei-me disso no momento de subir a Avenida da Liberdade porque achei que me estava a impor contra tantos anos de culpa católica e ingenuidade cândida para com os direitos dos homens. Ainda sou um moço de coro, cheio de beatices e medos celestiais. Não posso fugir ao que me educou primeiro. Posso, como quero, criticar a vida inteira, ponderando formas de nunca sucumbir aos meus próprios preconceitos, mas puxa-me sempre a alma para o lado esperançado da vida, o que me irrita muito. O Carlos Vaz Marques perguntava-me surpreso se eu acreditava mesmo na arte como redentora, porque os militares de Hitler (o filho da puta) choravam a ouvir Wagner. Eu, ainda assim, acredito. A verdade é que a arte não redime toda a gente. Nada foi feito para toda a gente. A mim, que já dei duas palmadas num cão e como aves e hambúrgueres de carne bovina, a arte faz-me mais gente. Ajuda-me. É inteiramente a minha religião. Se deus existir, ele que me receba pela arte, pela aventura de criar o possível, imaginando que é possível a evolução dos homens. Nem que apenas ínfima. Nem que apenas para alguns. Nem que apenas ilusória. Desde que seja capaz de mudar condutas para melhor. Se a ilusão nos tornar gente, gosto da ilusão. Se deus não entender isto, se deus existir, é um palerma desmiolado e insensível. Não vou querer conhecê-lo.
Por ter perdido um irmão antes de eu nascer, e por ter tido um pai hipocondríaco, que toda a vida julgou morrer com a picada de um mosquito, com uma dor de cabeça, uma constipação, a sopa demasiado quente ou com o aborrecimento de esperar alguém, nunca tive da vida ideias eternas. Aquilo incrível de os miúdos crescerem sem o espectro da morte, sem realmente entenderem o que isso é e não precisarem de o pensar nem conceber. Cresci sabendo que sobrevivia mais do que o meu irmão Casimiro, que foi enterrado com um ano. Eu, com cinco e seis anos, obrigado a rezar por ele e a conversar por ele ao pé da sua sepultura, valia por cinco ou seis iguais a ele. Eu, sabia bem, era uma preciosidade. Tinha muito valor, era escolhido, cheio de sorte, responsabilizado para o respeito e para a graça. O decoro e essa tristeza de base, como uma tristeza começada antes de mim, herdada, toda identitária da família, educaram-me acerca da disciplina da espera e da facilidade de se perder tudo. Achei sempre que podia morrer de uma picada de mosquito, com uma dor de cabeça, uma constipação, a sopa demasiado quente ou com o aborrecimento de esperar alguém. Ainda hoje sou um pouco assim. A dor dá-me logo vontade de ir com os anjos a ver como são as nuvens onde põem os avós e os cães, onde puseram o meu pai e o Casimiro.
Andar nu em Braga, afinal, não tem importância alguma. Foi o que pensei. Quando usei na capa do meu livro uma fotografia do meu corpo exposto assim, foi o que pensei. Não é sequer tão forte quanto o que digo nos poemas. Nenhuma nudez está à altura de um poema. Os poemas são sempre mais íntimos e carregam muito mais de nós ao leitor incauto. O leitor que pasmar diante da capa do meu livro está mal preparado para ser leitor. Está mal preparado para a vida.
Por causa da profusão de referências, a confusão de elementos na imagem da Avenida, fui, mais tarde e também em Braga, fotografado pelo Nelson d'Aires. Queria muito chegar a uma cena como a da capa do disco In the flat field, dos Bauhaus, que adoro. Queria ficar desfocado e relativamente sensual, com um ar profundo e meio fugidio. Fiquei, contudo, com ar de fantasma que se esqueceu da invisibilidade, a passar a porta num apartamento abandonado, um frio de rachar, as janelas a correr vento, a alcatifa molhada. Um fantasma a tremer. No cômputo geral, um tipo a lidar com o ter medo. Foi sempre isso. Metia-me medo a mim próprio. Mas acabou. Agora tenho medo apenas dos outros. Parei absolutamente de querer ver-me morto, por frustração, deslumbre ou vingança.
Não poderia o diretor desta revista suspeitar que, ao sugerir-me escrever sobre esse múltiplo eu que me carrega, encontraria a resposta sincera que à primeira não lhe dei: desisti de me matar quando saí nu à rua, e fujo dos meus poemas a sete pés. No dia 16 de março de 1996 alguém se apaixonou por mim. Como já sabia, não era para sempre. Eu estava convencido de que nunca deveria sucumbir à tentação de perdurar. Porque, se morresse no início das coisas, elas seriam eternas, apenas assim. Nunca percebi nada do amor e nunca percebi nada sobre a morte. Um e outra me acossam. Se eu soubesse como, seria de pedra por dentro. Sem gostar de nada nem de ninguém. Sem temer nada e sem perceber o tempo a gastar-se. E escreveria livros. Sossegado. Preocupado apenas com as palavras e as pessoas feitas de palavras. Sem querer ser normal, ter uma vida normal, uma alegria que se reitere, o desejo de maior conforto. No dia 16 de março de 1996 sentei-me num muro alto e não tive coragem. Divertiu-me ficar a ver as pessoas a passar muito lá em baixo, e ficar a sentir vertigens. A lutar contra as vertigens como se pudesse ser, ao menos, um herói naquela experiência. De todo o modo, sei agora, saltei para dentro do poema. Nos poemas, na verdade, morri uma e outra vez. Na verdade. E já andava nu há muito. Há muito e muito tempo.

1 comentário:

Anónimo disse...

grata por disponibilizar este maravilhoso texto!!!