Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

As mamas de Tirésias: drama surrealista em dois actos e um prólogo (Guillaume Apollinaire)

ACTO PRIMEIRO

(...)

CENA SEGUNDA

O MARIDO (Entra com um grande ramo de flores, e como ela não lhe presta atenção atira as flores para a sala. Daqui em diante O MARIDO perde a pronúncia belga)
Apetece-me marmelada ouve o que eu te digo

TERESA
Vai mas é pentear macacos

O MARIDO (Enquanto fala, TERESA eleva o som do seu cacarejo. Ele aproxima-se como se fosse esbofeteá-la, mas diz a rir-se)
Ah esta coisa não é a Teresa minha mulher
(Uma pausa, e depois num tom severo ao megafone)
Mas que mal-amanhado lhe vestiu a roupa
(Examina-a de perto e volta para trás. Ao megafone)
Isto é um assassino e matou-a sem dúvida
(Sem megafone)
Teresa minha querida Teresa onde estás
(Reflecte com a cabeça entre as mãos; e depois, com os pés bem assentes e as mãos nas ancas)
Vou matar-te ó abjecta personagem mascarada de Teresa
(Lutam, mas ela leva a melhor)

TERESA
Tens razão já não sou tua mulher

O MARIDO
Não querem lá ver

TERESA
Mas no entanto sou eu a Teresa

O MARIDO
Não querem lá ver

TERESA
Embora uma Teresa que deixou de ser mulher

O MARIDO
É forte de mais

TERESA
E como passei a ser um tipo bonito

O MARIDO
Pormenor que eu ignorava

TERESA
Daqui em diante vou usar um nome de homem
Tirésias

(...)

CENA SÉTIMA

O POLÍCIA
Esta paisagem com duelistas
Não me impede de dizer que acho a sua pele
Tão macia como um trajo de cetim

O MARIDO
Atchim (Louça partida)

O POLÍCIA
Estar constipado é sinal de elegância

O MARIDO
Atchância (Tamborim. O MARIDO levanta a saia, que o incomoda)

O POLÍCIA
Oh mulher frívola (Pisca o olho)
Mas isso o que importa quando a rapariga é bonita

O MARIDO (Aparte)
Dou-lhe toda a razão
Porque se a minha mulher é homem
É justo que eu seja mulher
(Pudicamente a O POLÍCIA)
Sou uma honrada mulher-senhor
E a minha mulher um homem-senhora
Levou com ela o piano o violino aquilo que nos garante o sustento
E agora é soldado ministro mérdico

O POLÍCIA
Mas é a mãe dos seios

O MARIDO
Como eles explodiram
Ficou sobretudo mérdica

O POLÍCIA
Ela é a mãe dos cisnes
Ah como eles não se fartam de cantar que vão morrer
Oiça (Gaita de foles, ária triste)

O MARIDO
Como só se trata da arte de curar os homens
Tanto pode consegui-lo a música
Como qualquer mezinha

O POLÍCIA
Porte-se bem não arrepie o cabelo

O MARIDO
Não converso mais consigo
(Ao megafone)
Onde pára a minha mulher

VOZES DE MULHERES (Nos bastidores)
Viva Tirésias
Nem mais um filho nem mais um filho

(Trovão e grande tambor. O MARIDO faz uma careta aos espectadores e põe na orelha uma mão como uma corneta acústica, enquanto O POLÍCIA tira um cachimbo do bolso e lho oferece. Guizos)

(...)

O POLÍCIA
Menina ou senhora estou a sentir por si
Um amor descomedido
E quero ser seu marido

O MARIDO
Atchido
Não está a ver que eu sou apenas um homem

O POLÍCIA
Mesmo assim posso casar-me consigo
Por procuração

O MARIDO
Tolices
Seria preferível que o Senhor Polícia fizesse filhos

O POLÍCIA
Ah não me diga

VOZES DE HOMENS (Nos bastidores)
Viva Tirésias
Viva o general Tirésias
Viva o deputado Tirésias

(O acordeão toca uma marcha militar)

VOZES DE MULHERES (Nos bastidores)
Nem mais um filho nem mais um filho


Tradução de Aníbal Fernandes

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