Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

Lettres portugaises (Soror Mariana Alcoforado)

I

(...)
Conjuro-te a que me digas por que é que te empenhaste em me encantar como fizeste, se já sabias que me havias de abandonar? Por que é que puseste tanto empenho em me tornar infeliz? Por que não me deixaste em paz no meu convento? Tinha-te feito algum mal?
Perdoa-me! Eu não te culpo de nada! Não estou em condições de pensar na minha vingança e só acuso a dureza da minha sorte. Parece-me que, ao separar-nos, ela nos fez todo o mal que tínhamos a temer: os nossos corações não os podia ela separar! O amor, mais poderoso do que ela, uniu-os para toda a vida!
Se tens algum interesse pela minha, escreve-me muitas vezes. Bem mereço que te dês ao cuidado de me informar sobre o estado do teu coração e da tua vida. Peço-te, sobretudo, que me venhas ver! Adeus! Não posso largar este papel! Ele cairá nas tuas mãos: bem quisera ter eu a mesma sorte! Ai de mim! Louca que sou! Bem me dou conta de que isso não é possível!
Adeus! Não posso mais! Adeus! Ama-me sempre e faze-me sofrer ainda maiores males.


II

(...)
Um oficial francês teve a caridade de me falar de ti esta manhã durante mais de três horas. Disse-me ele que a paz da França estava feita. Se assim é, não poderias vir ver-me e levar-me para França? Mas eu não o mereço! Faze o que te aprouver: o meu amor já não depende do modo como me trates.
Desde que partiste, não tive um único momento de saúde e o meu único prazer consiste em murmurar o teu nome mil vezes ao dia! Algumas religiosas, que conhecem o estado deplorável em que me puseste, falam-me muitas vezes de ti. Saio o menos que me é possível do meu quarto, onde vieste tantas vezes, e olhos sem cessar o teu retrato, que me é mil vezes mais caro do que a vida. É ele que me dá alguma alegria; mas provoca-me também um grande sofrimento, quando penso que talvez nunca mais te volte a ver.. E por que há-de ser possível que nunca mais te veja? Ter-me-ás abandonado para sempre?
Estou desesperada! A tua pobre Mariana já não pode mais: desfalece ao acabar esta carta.
Adeus, adeus! Tem compaixão de mim!


III

(...)
Adeus! Promete que me lamentarás com saudade se eu vier a morrer de dor! E que ao menos a violência da minha paixão te tire o gosto e te afaste de todas as coisas. Essa consolação me bastará, e, se é preciso que te abandone para sempre, bem gostaria de não te deixar a uma outra qualquer. Não seria uma crueldade sem par da tua parte servires-te do meu desespero para te tornares mais amável e para mostrar que provocaste a maior paixão do mundo?
Adeus, mais uma vez! Escrevo-te estas cartas longas de mais; não tenho suficiente respeito por ti, e disso te peço perdão. E ouso esperar que usarás de alguma indulgência para com uma pobre insensata que o não era, como muito bem sabes, antes de te amar.
Adeus! Parece-me que falo de mais no estado deplorável em que me encontro. No entanto, do fundo do coração te agradeço o desespero que me causas, e detesto a tranquilidade em que vivi antes de te conhecer.
Adeus! A minha paixão aumenta a cada momento! Ah!, quantas coisas tinha ainda para te dizer!...


IV

(...)
O oficial que te há-de levar esta carta manda-me dizer, pela quarta vez, que quer partir. Que apressado está! Decerto vai abandonar nesta terra alguma desgraçada!
Adeus! Tenho eu mais dificuldade em terminar a carta do que tu tiveste em me deixar, talvez para sempre.
Adeus! Não ouso dar-te mil nomes ternos, nem abandonar-me livremente a todos os meus arrebatamentos. Amo-te mil vezes mais do que à minha vida, e mil vezes mais do que eu penso! Como me és querido!... e como és cruel para mim! Tu não me escreves! Não consegui impedir-me de te dizer ainda isto!
Vou recomeçar, e o oficial partirá. Que importa que ele parta? Eu escrevo mais para mim do que para ti, e aquilo que procuro é consolar-me. Por isso vais-te assustar com a extensão da minha carta e nem a chegarás a ler...
Que fiz eu para ser tão desgraçada? Por que envenenaste a minha vida? Por que nasci eu noutro país?
Adeus! Perdoa-me! Já não ouso pedir-te que me ames: vê a que estado me reduziu o meu destino! Adeus!


V

(...)
Mas, finalmente, regressei deste encantamento. Deu-me, para tanto, uma grande ajuda e confesso que dela tinha extrema necessidade.
Embora lhe devolva as suas cartas, guardarei cuidadosamente as duas últimas que me escreveu, e hei-de lê-las ainda mais vezes do que li as primeiras, a fim de não voltar a cair nas minhas fraquezas. Ah!, quanto elas me custam, e como eu teria sido feliz se tivesse querido consentir em que o amasse para sempre!
Bem vejo que estou ainda mais ocupado do que devia estar com as minhas censuras e com a sua indiferença. Mas lembre-se de que prometi a mim própria um estado mais sereno e que lá hei-de chegar! Ou, então, tomarei contra mim alguma resolução extrema, de que tomará conhecimento sem grande desgosto. Mas nada mais quero de si.
Sou uma louca em voltar a dizer as mesmas coisas tantas vezes! É preciso que o deixe e que não volte a pensar em si. Julgo mesmo que não voltarei a escrever-lhe. Tenho alguma obrigação de lhe dar contas dos meus actos?


Tradução de J. Tomaz Ferreira

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