Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

K. Maurício (Raul Brandão)

A cada passo se formam por aí grupos literários. Há-os em todas as gerações. Os rapazes sentiram sempre necessidade de comunicar e juntam-se conforme o acaso, as afinidades ou as aspirações.
É um momento delicioso que nos deixa para sempre um nada de poeira no fundo da alma - algum pó dourado que teima em reluzir até ao fim da vida. Já o passado fica muito longe, já as figuras de apagadas mal se distinguem e ainda a poeira de sonho teima lá no fundo... É que essas horas são como a primeira flor das árvores: não há nada que as pague. Por melhores e mais conscientes amizades que mais tarde se adquiram, nenhuma chega à dos vinte anos, quando o homem não tem interesses a defender e os sentimentos estão em pleno viço. Não há um de nós que saiba ainda o que vale a existência e todos de mãos dadas olhamos com sofreguidão e candura. É o começo delicioso duma aventura. Estamos juntos e unidos como irmãos e já sentimos o travor da separação: só mais um passo e cada um parte para o seu lado, sem às vezes se tornar a ver.
Valia a pena determo-nos a olhar a vida, tingida de névoa azul como certas paisagens que só são belas de longe - a vida como nunca mais nos será dado vê-la -, mas quem é que nesse idade se detém?

Em qualquer recanto, num café, entre quatro paredes que não importam, porque, por mais denegridas que sejam, a nossa alma tem o poder extraordinário de tudo transformar, falamos ao mesmo tempo e com o mesmo entusiasmo, repartindo sonho às mãos-cheias. É então visível e quase tangível a auréola que se forma sobre as cabeças de vinte anos.
O que em nós vai secando pela vida fora está tão sensível que magoa tocar-lhe. Todos somos poetas, todos vivemos num estonteamento que se parece com o amor. Todos os dias são de primavera. Ainda que o casaco esteja no fio, a gente não sabe que mudaram as estações, e a existência, mesmo numa mansarda, é uma festa perpétua.
À noite cada um estatela o seu sonho diante dos outros, e aquilo é um braseiro imenso ao qual todos se aquecem. Essas horas tão curtas são extraordinárias, porque o mundo pertence-nos e as asas da quimera, que nos protege e não sai do nosso lado, toca o céu e a terra. De dia o grupo caminha às vezes pela rua fora, falando tão alto que toda a gente se volta: impregna-o uma atmosfera de mocidade e de beleza de tal forma magnética que as raparigas - em que eles nem sequer reparam porque discutem metafísica - sentem arfar-lhes o seio redondo que se forma, e seguem pensativas.
Outro momento e tudo isto desaparece para sempre: a vida vai-nos modificar de alto a baixo na sua forja brutal, dando-nos uma têmpera mais rija e um sabor mais amargo...

Sem comentários: