Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

o inquérito (Mário Cesariny)

1ª VOZ
Armazenadas todas as essências

2ª VOZ
Dividido o calor

3ª VOZ
Dispostas as correiras de transmissão dos cabelos

1ª VOZ
E a mão a alada mão que resume a experiência

2ª VOZ
Despidos mas não mais que as petrificadas roupas

3ª VOZ
A pouco e pouco passamos

1ª VOZ
A mosca do infinito serve à mesa

2ª VOZ
Faz a barba aos homens

3ª VOZ
Dá bilhetes para

1ª VOZ
É como se vestisse fato novo
quem nem sapatos tem para ir à polícia

2ª VOZ
Quem será o juiz desta manhã sem cadáveres
docemente despida para fora do movimento

3ª VOZ
De um lado escadas do outro lado escadas

1ª VOZ
Dir-se-ia que vai haver parada

2ª VOZ
Se houvesse uma chave para abrir esta história
de espelhos deitados ao longo da praia

3ª VOZ
Porque é que não se largavam? Porque é que não tinham casa?
Porque é que a cara deles estava sempre maior?
Mais imóvel? Mais lenta? Mais cega da claridade?

1ª VOZ
Este tempo está feito um domingo monstruoso

2ª VOZ
É dos que lavaram do cavalo as mãos

3ª VOZ
Levaram os sonhos para casa

1ª VOZ
Fazem de mortos para escapar aos vivos

2ª VOZ
Fazem de vivos e fazem mal

3ª VOZ
Entretanto no fundo de olhos inteligentes
agitam-se oceanos de saliva

1ª VOZ
Um pequeno espaço no tempo
de que os pilotos gostam

2ª VOZ
O interior do meu navio a branco

3ª VOZ
O interior

1ª VOZ
O interior do meu navio a branco
são estas avenidas sem retrocesso
onde o sangue pagou o seu tributo ao esqualo
e onde tu não estás meu triunfo e meu espanto
de corpo livre a ver o vento aterrar

2ª VOZ
Agora já passou agora basta

3ª VOZ
Agora regressar ao interior do navio

1ª VOZ
Agora vêm aí pedir-nos a verdade
como quem pede o troco do planeta para as dez
dez e meia onze horas da manhã

2ª VOZ
A verdade eu explico

3ª VOZ
Arcturus e Astralis egípcios-alemães
passam neste momento na direção norte-norte
a terra vai tremer e precipitar-se

1ª VOZ
No donde nunca saiu embora se mova

2ª VOZ
E com ela a verdade

3ª VOZ
Verdade azul verdade branca dos rios

1ª VOZ
Verdade em linha reta dos olhos dos namorados

2ª VOZ
Verdade cor de muro

3ª VOZ
Cor de cinema pobre

1ª VOZ
E depois cor de fogo verdade escura cor de homem

2ª VOZ
E sabem para que são estas verdades todas
e todos estes livros de moradas?

3ª VOZ
São para glorificar o corpo a corpo
o boca a boca o calça a calça e as mãos nas mãos perceberam?

1ª VOZ
Não não perceberam

2ª VOZ
São milhares de cabeças separadas do tronco
mantidas por filamento fixo à nuca

(breve pausa)

3ª VOZ
Até aqui nada de extraordinário

1ª VOZ
Nada a ver com o grito do sol no horizonte quando uma ave subitamente sangra
e os sonhos voltam à sua casa no espaço

2ª VOZ
De um colchão carbonizado pouco fica

3ª VOZ
Erguia-se limpava o braço azul deixava ficar tudo como estava

1ª VOZ
Mas dele até ao pó e às sombras dos sapatos
quantas revoluções perpetuadas

2ª VOZ
Ali onde a parede não faz chão

3ª VOZ
E diz então que a catedral era em baixo

1ª VOZ
Não adivinho como nos encontrámos

2ª VOZ
Perguntava isto e aquilo respondia rindo

1ª VOZ
Ou era eu que ria não sei bem

2ª VOZ
Entrámos numa escada

3ª VOZ
Mas a alvura dos muros era contra vós

1ª VOZ
Com as costas da mão toquei-lhe no sexo fortemente arqueado dentro da roupa

2ª VOZ
Comecei a tremer como uma vara verde

3ª VOZ
Puxou-me o outro braço e apoiou-se pesou sobre mim como se eu fosse a base do universo

1ª VOZ
Ouvi o trabalhar de um relógio de pulso na minha nuca

2ª VOZ
Que som para a eternidade

3ª VOZ
Quase fazíamos a mesma altura a mesma sombra sobre o chão de pedra

2ª VOZ
Mas a farda marcava-lhe a figura enquanto o teu casaco adejava no ar

3ª VOZ
Falei-lhes nisso e ele riu divertido

1ª VOZ
«Então tu gostas mesmo»

2ª VOZ
«Gosto de quê»

1ª VOZ
«De um homem»

2ª VOZ
Não lhe deste resposta

2ª VOZ
Que resposta haveria para dar

1ª VOZ
Era um jogo de aves do paraíso num céu iluminado a caixas de fósforos

2ª VOZ
E o halo dos seus braços contra a porta chapeada

1ª VOZ
E o rosto soerguido num mimo trágico

2ª VOZ
Como de rei ou mago santo ou santa

3ª VOZ
Como acha então o mundo?

1ª VOZ
Algumas vezes foi preciso matar

(breve pausa)

1ª VOZ
Impossível saber para onde foi a nuvem
nem porque faleceram os principais

2ª VOZ
A cadeira a vapor da cerimónia

1ª VOZ
A augusta farrapa reluzente

2ª VOZ
Enquanto a bicicleta duma alegria enorme entra pelo mar dentro tenazmente saudada pela solidão das barragens submersas que expelem barbas verdes para fazer a noite

2ª VOZ
Muito alta muito branca muito educada
a estátua tóxica avança

3ª VOZ
Todos atravessaram para ir ver o desastre e não houve desastre
houve um garoto com uma gaiola e uma rapariga que vendia laranjas há muitos anos

1ª VOZ
Quatro pequenos ratos formam hemiciclo

2ª VOZ
Mas nunca a rua pareceu tão deserta

3ª VOZ
Às quartas-feiras o amor é um plágio

1ª VOZ
Um vento de cadáver refrescado
produzido em quantidades industriais

2ª VOZ
Grandes barcos sem hélices são levados a correr para a cama e aí expostos ao sol dias inteiros

3ª VOZ
Verdade e água para todos diz o vento

1ª VOZ
E conquanto eu não creia muito em mim

2ª VOZ
Nem seja dos que andam à procura para a construção da personalidade

(risos)

3ª VOZ
Aqui está uma montra para ajeitar a gravata

1ª VOZ
E aqui está uma esquina para tratar do assunto

2ª VOZ
Dedo mindinho pressão na barriga maquinismo de levitação para a letra A
Dedo médio arco-íris o maquinismo liga à tinta verde transe para a emersão da letra M

1ª VOZ
É a letra do meu nome

2ª VOZ
Dedo anelar rosácea e estrela cadente letras U letras R e conjuntivas parágrafas
que me abstenho bem de nomear

3ª VOZ
Para a letra K é preciso que corra sangue

1ª VOZ
Empregar só nas grandes ocasiões

(breve pausa)

3ª VOZ
Até aqui nada de extraordinário

1ª VOZ
Já não custa nada o amor

2ª VOZ
Já não custa nada a experiência

3ª VOZ
Nada o beijo na boca

2ª VOZ
A cintilante piscina dos braços

1ª VOZ
Já ninguém tem a mais pequena imagem do leão que rasteja entre as arcadas

2ª VOZ
O caso é todo o da ampola marinha que emergiu com o seu espelho à hora do começo do movimento parado

1ª VOZ
Na coluna marítima espelhada
a fria a lacónica data inexpressiva

2ª VOZ
Gatilho de todas as horas esperança tu sufocas

3ª VOZ
Ainda podes subir à altura dos telhados
e ver como rebentam as ondas na praia

2ª VOZ
É muito
é já demais
um dia e uma noite ao largo dos oceanos

3ª VOZ
Momento de beleza!

1ª E 2ª VOZES
Chora por mim que estou alegre
por esta paisagem de sangue
por estas rosas nos pulsos
da carne-mar da cidade
e chora pelo meu barco
de peixes e ventoinhas
marujos sem capitão
nem carta de identidade
violências e razão
castidade e crueldade
abraços de arribação
e outra plantas daninhas
que sobem ao coração
e fazem dele cidade
E também pelo segredo
que se não vende a ninguém
a chave de meter medo
à porta que se não tem
e pelos gestos sensuais
em rítmicas ondas mansas
demorados animais
assassinos de crianças
e pela confirmação
que não chegou à verdade
por Joaquim e João
por António e seu irmão
de excelsa virilidade

3ª VOZ
E pelos mortos nos mastros

1ª E 2ª VOZES
Jean-Claude Carlos José
Manuel Augusto António
que deviam ir de rastos
mas que se têm de pé
por pacto com o demónio

2ª VOZ
Chora enfim o mar insulso
desse honesto capitão
que prometia ser forte
e não tem direto ao lote
que lhe acaricia o pulso
que lhe floresce na mão
que lhe resvala na sorte
das ondas minha alegria
do vento carinho meu
ai chora por esse barco
espatifado contra o céu

(breve pausa)

1ª VOZ
Acenderam-se fogos sobre o rio

3ª VOZ
São vivas setas multicores
que o mais pequeno nada intercessiona
num movimento de pequenas ondas

2ª VOZ
Como se a noite negra
manasse
e das ondas em roda
o manto de Oberon cobrisse a água toda

(breve pausa)

1ª VOZ
Limpem bem os fatos

2ª VOZ
Lavem muito bem os dentes

1ª VOZ
Batam na engomadeira

2ª VOZ
Façam filhos

1ª VOZ
Sejam sensuais

2ª VOZ
Senso ais

1ª VOZ
Sexo ais

2ª VOZ
Procurem o buraco próprio

1ª VOZ
Da vossa saliência

2ª VOZ
E a saliência

1ª VOZ
Da vossa reentrância

2ª VOZ
Não tenham medo

1ª VOZ
Comam

3ª VOZ
O leque é extraordinário

1ª VOZ
Galinha

2ª VOZ
Pato

1ª VOZ
Tudo

3ª VOZ
Sejam alegres

1ª VOZ
Necessários

2ª VOZ
Sadios

3ª VOZ
O cofre dos países

2ª VOZ
Zanoni

1ª VOZ
Sutmil

3ª VOZ
Catorze

(breve pausa)

E diz então que a catedral era em cima

(breve pausa)

Tudo isto tem a ver com o conhecimento
de um pequeno jardim no meio da cidade
quando o sono e o silêncio despovoam a terra
e o último vagabundo entra a porta sem número e vai desaparecer correndo pelo telhado

(breve pausa)

2ª VOZ
Os barcos russos chegaram a Havana

1ª VOZ
Vou comprar uma camisola

3ª VOZ
Os barcos russos não chegaram a Havana

1ª VOZ
Vou comprar uma camisola

2ª VOZ
O pássaro cujas asas são dois olhos escuros vivos como chamas

3ª VOZ
Foi comido pela máquina fotográfica

(breve pausa)

1ª VOZ
Dois de sete pediu o meu amor

2ª VOZ
Mais caiu-lhe o boné

1ª VOZ
Tudo quanto ali estava foi ajudar a achar a trazer a limpar

3ª VOZ
Viste-o assim pela última vez

2ª VOZ
No meio de uma roda de transeuntes baixando-se a aceitar o boné que dançava

1ª VOZ
Erguendo-se e fitando-me nos olhos, fixo.

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