Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

O fazedor de teatro (Thomas Bernhard)

BRUSCON
(...)
Com as mulheres há no teatro
as maiores dificuldades
elas nunca entendem nada
Elas não dão o máximo
não entram no inferno do teatro
no que fazem nunca põem todo o seu empenho
e a falta de empenho compreende
essa falta de empenho
é a morte do teatro
Mas o que seria uma comédia como a minha
sem intérpretes femininos
precisamos das mulheres
Se a nossa comédia quiser ser brilhante
precisamos de mulheres na nossa comédia
esta é que é a verdade
mesmo que seja amarga
Se soubesse o que me custou
ensinar à minha mulher as regras fundamentais mais primitivas da representação dramática
cada questão mais que óbvia um martírio durante anos
por um lado precisamos dos intérpretes femininos
por outro são mortais para o teatro
No que diz respeito às mulheres
não podemos exagerar o nosso charme
para que a nossa hipocrisia
não se manifeste de forma bem clara
Sò a palavra Odense
teve ela de a pronunciar oito mil vezes
até eu a poder aceitar
fala muito baixinho
Odense
É tão simples
deixe baixinho Odense
a minha mulher precisou de anos
para o pronunciar de forma aceitável
Por outro lado não podemos tratar os intérpretes femininos
de uma forma que vá até aos extremos
senão atacam-nos pelas costas
as mulheres toleram muita coisa
mas não tudo meu caro senhor
Quando pronunciamos a palavra m a r
temos de saber o que é o mar
isso é mais que evidente
ou a palavra m a t a - r a t o s
seja o que for que isso signifique
uma coisa evidente
não no que diz respeito às mulheres
Têm de ser treinadas durante dezenas de anos
para compreenderem a coisa mais simples
E como isso é ainda mais difícil
quando se trata da própria mulher
à qual por assim dizer nos ligámos para sempre
Fazer teatro com mulheres
é uma catástrofe
Quando empregamos um intérprete feminino
empregamos por assim dizer um freio do teatro
e são sempre os intérpretes femininos
que assassinam o teatro
se bem que nunca o digamos abertamente
porque somos muito galantes para isso
uma actriz trágica
sempre foi um absurdo
se pensarmos que uma tragédia
não é mais que uma autêntica loucura
Se formos sinceros
o teatro em si é um absurdo
mas se formos sinceros
não podemos fazer teatro
não podemos se formos sinceros
escrever uma peça de teatro
nem representar uma peça de teatro
se formos sinceros
a única coisa que podemos fazer
é suicidarmo-nos
mas como não nos suicidamos
porque não nos queremos suicidar
pelo menos até hoje e até agora
coo portanto até hoje e até agora não nos suicidámos
vamos continuando sempre a tentar o teatro
escrevemos para o teatro
e representamos teatro
mesmo que seja tudo o maior absurdo
e a maior hipocrisia
(...)
já para não dizer
que se trata de uma perversidade
que tem já milhares de anos
o teatro é uma perversidade com milhares de anos
pela qual a humanidade é doida
e é tão doida por ela
porque é doida pelo seu fingimento
e em parte nenhuma desta humanidade
o fingimento é maior e mais fascinante
que no teatro
põe o indicador da mão esquerda na boca e levanta-o depois
no ar

(...)

Tradução de José A. Palma Caetano

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