Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

L'amour fou (André Breton)

Quer a lenda que, apesar do seu vestido tecido pelas Graças, Vénus seja ferida por Diómedes. A vulnerabilidade da deusa é formalmente especificada. O amor, naquilo que este possui de mais terreno - Vénus expôs-se para defender Eneias, o filho que tivera do homem menos evoluído, do guardador de rebanhos -, deverá ser atingido durante a vida na própria carne, e não se esqueceu assim o mitógrafo de precisar quais os factos que, no seu inelutável encadeamento, irão ter como consequência essa passageira mortificação. Na sua origem, estão as sevícias de Eris, a Discórdia, que no pomo de oiro acaba de gravar a fatídica inscrição: «À mais bela».
Perante a força de um tal mito, de que são testemunho o seu imediato poder de expansão e a sua persistência até aos nossos dias, impossível nos é duvidar de que ele exprime uma verdade comezinha e eterna, de que traduz, em linguagem alegórica, uma série de observações cheias de fundamento, cujo campo de ação só pode ser, inevitavelmente, o da existência humana. É que na realidade a paixão, com o seu magnífico olhar alucinado, deve padecer por ter de entrar em humanas lutas. Ainda mesmo, por que não confessá-lo, ainda mesmo quando se sente mais segura de si, não raro lhe sucede escorregar no corredor dos minutos, das horas, dos que se sucedem, sempre diferentes uns dos outros. Esse corredor, com o seu teto recamado de astros incertos, ora se nos apresenta inundado de luz, ora crepuscular, ora, mesmo, totalmente às escuras. Mal surgem as trevas, logo, do exterior, se erguem, prontas a detê-la, a materialidade e a intelectualidade, para empregarmos os próprios termos do conto grego - Juno e Minerva -, suas rivais suplantadas e suas principais inimigas.
Como é cruel e simultaneamente belo este mito de Vénus! Um amor já morto só pode dar lugar à primavera de uma anémona. Só à custa de uma ferida imposta pelas potências adversas que dirigem o homem é que triunfará o amor vivo.

(...)

Era nisso que eu pensava, de certo modo febrilmente, em setembro de 1936, sozinho convosco na minha famosa casa inabitável de sal gema. Nisso pensava eu, no intervalo dos jornais que, com maior ou menor hipocrisia, relatavam os episódios da guerra civil de Espanha, e por detrás dos quais julgáveis que me escondia para convosco jogar às escondidas. Também assim era, pois nessas ocasiões o inconsciente e o consciente, encarnados em vós e em mim, viviam lado a lado, em plena dualidade, em completa ignorância um do outro e, todavia, comunicando muito facilmente entre si, mercê de um único fio fortíssimo, que era a nossa troca de olhares. Não há dúvida de que a minha vida, então, estava presa apenas por um fio. Grande era a tentação de ir oferecê-la a todos os que, indubitavelmente, e sem distinção de tendências, queriam, a todo o custo, acabar com a velha «ordem» estabelecida, fundada no culto dessa abjeta trindade que é Deus, Pátria e Família. Contudo, vós retínheis-me preso por esse fio que é o fio da felicidade, transparente até na própria trama do infortúnio. Amava, em vós, todas as crianças filhas dos milicianos de Espanha, iguais às que vi correrem nuas nos arredores cor de pimenta de Santa-Cruz de Tenerife. Oxalá o sacrifício de tantas vidas humanas possa vir a gerar seres mais ditosos. Eu, porém - e para que tal pudesse vir um dia a acontecer -, é que não conseguia arranjar coragem para expor, juntamente com a minha, a vossa vida.
Que, antes de mais nada, se enterre de vez o conceito de família! Se vos amei como fruto do desejo natural, foi apenas na medida em que vos mostrastes inalienável daquilo que eu considerava ser a necessidade humana, a necessidade lógica; na medida em que sempre encarei a conciliação dessas duas necessidades como a única maravilha ao alcance do homem, como a única hipótese que lhe resta de se furtar, de quando em vez, à sua ruim condição. Passastes da não existência à vida graças a um desses acordes felizes, os únicos para os quais me apraz ter bom ouvido. Fostes considerada coisa possível, e certa, no momento exato em que, com o amor mais seguro de si, um homem e uma mulher vos desejaram.
Afastar-me para longe de vós! Revestia-se para mim da maior importância ouvir-vos, por exemplo, responder, um dia, com toda a inocência, a essas perguntas insidiosas que as pessoas crescidas fazem às crianças: «Com que é que se pensa, com que é que se sofre? Como é que se soube o nome do sol? Donde é que a noite vem?» Como se elas próprias o soubessem! Já que, para mim, sois a criatura humana em toda a sua autenticidade, deveríeis, contra tudo o que é previsível, ser vós mesma a ensinar-mo...

Gostaria de saber-vos loucamente amada.

Tradução de Luiza Neto Jorge

Sem comentários: