Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

César Vallejo

A CEIA MISERÁVEL

(...) Já nos temos sentado
muito à mesa, com a amargura de um menino
(...)


XV

(...)

Vieste cedo para outros assuntos
e já não estás aqui. Este é o canto
onde a teu lado uma noite li,
entre os ternos pontos que tu davas
, um conto de Daudet. É o canto
amado. Não o confundas.

Pus-me a lembrar aqueles dias de verão passados, teu entrar e sair,
pequena e cansada e pálida nos quartos.

(...)


XXVIII

(...)
E doeram-me as facas
desta mesa em todo o céu da boca.

(...)


LXI

(...)

O papá há-de estar acordado a rezar,
talvez pense que se fez tarde para mim.
(...)


LXIX

(...)

O mar, e uma edição de pé,
em sua única folha a face
frente ao reverso.


VOU FALAR DA ESPERANÇA

Eu não sofro esta dor como César Vallejo. Não me queixo agora como artista, como homem nem como simples ser vivo sequer. Eu não sofro esta dor como católico, como maometano ou como ateu. Hoje sofro somente. Se não me chamasse César Vallejo, também sofreria esta mesma dor. (...)

Eu cria até agora que todas as coisas do universo eram, inevitavelmente, pais ou filhos. Mas eis que a minha dor de hoje não é pai nem filho. Falta-lhe dorso para anoitecer, tanto como lhe sobre peito para amanhecer (...).


DESCOBERTA DA VIDA

(...) Nunca, senão agora, avancei paralelamente à primavera, dizendo-lhe: «Se a morte tivesse sido outra...» Nunca, senão agora, vi a luz áurea do sol sobre as cúpulas do Sacré-Coeur. Nunca, senão agora, se aproximou de mim um menino e me olhou fundamente com a boca. Nunca, senão agora, soube que existia uma porta, outra porta e o canto cordial das distâncias.

(...)


JÁ NÃO VIVE NINGUÉM...

(...) O que continua na casa é o órgão, o agente em gerúndio e em círculo. Os passos partiram, os beijos, os perdões, os crimes. O que continua na casa é o pé, os lábios, os olhos, o coração. As negações e as afirmações, o bem e o mal, dispersaram-se. O que continua na casa é o sujeito do acto.


EXISTE UM MUTILADO...

(...) Os impulsos do seu ser profundo, ao sair, retrocedem do rosto e a respiração, o olfacto, a vista, o ouvido, a palavra, o resplendor humano do seu ser, funcionam e exprimem-se pelo peito, pelos ombros, pelos cabelos, pelas costelas, pelos braços e as pernas e os pés.

Mutilado do rosto, tapado do rosto, cerrado do rosto, este homem, contudo, está inteiro e nada lhe faz falta. (...)


ALGO TE IDENTIFICA...

Algo te identifica com o que se afasta de ti, e é a faculdade comum de voltar: daí a tua maior mágoa.

Algo te separa do que fica contigo, e é a escravidão comum de partir: daí os teus mais insignificantes regozijos.

(...)


HOJE AGRADA-ME A VIDA MUITO MENOS...

Hoje agrada-me a vida muito menos,
mas sempre me agrada viver: já o dizia.
Quase toquei a parte do meu todo e contive-me
com um tiro na língua junto à minha palavra.

(...)

Disse colete, disse
tudo, parte, ânsia, disse quase, para não chorar.
Que é verdade que sofri naquele hospital que fica ao lado
e está bem e está mal haver olhado
meu organismo de baixo para cima.

(...)


OS NOVE MONSTROS

(...)

Nunca tanto carinho doloroso,
(...)
com a rês de Rousseau, com nossas barbas;
cresce o mal por razões que ignoramos
e é uma inundação com os próprios líquidos,
com o próprio barro e a própria nuvem sólida!
(...)


POR VEZES, CHEGA-ME UMA ÂNSIA UBÉRRIMA

Por vezes, chega-me uma ânsia ubérrima, política,
de amar, de beijar o carinho em seus dois rostos,
e chega-me de longe um querer
demonstrativo, outro querer amar, por gosto ou à força,
o que me odeia, o que rasga ao rapazinho o seu papel,
a que chora pelo que chorava,
o rei do vinho, o escravo da água,
o que na sua ira se ocultou,
o que sua, o que passa, o que sacode a sua pessoa na minha alma.
(...)


CONSIDERANDO A FRIO, IMPARCIALMENTE

(...)

Considerando também
que o homem é na verdade um animal
e, contudo, ao dar voltas, me dá com sua tristeza na cabeça...

(...)


PEDRA NEGRA SOBRE UMA PEDRA BRANCA

(...)

Morreu César Vallejo, espancavam-no
todos sem que lhes fizesse nada;
davam-lhe forte com um pau e forte

com uma corda também; são testemunhos
as quintas-feiras e os ossos úmeros,
a solidão, os caminhos, a chuva...


Tradução de José Bento

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