Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

A Paixão (Almeida Faria)

Deve ser meio-dia e eu na cama, diz para si André, envolto nesta vontade de só sobreviver, bem para além dos corpos de que me sinto alheio, dos corpos cujo erotismo insisto em procurar, dos corpos cujo corpo quero ser, para além do mundo que não olho por me saber de fora e por, ao mesmo tempo, ter perdido a pureza do começo; depois da dissolução me assalta uma urgência de claustro, invejo as casas e castelos isolados, os palácios e conventos que são sempre, mesmo quando no meio de uma vila ou cidade, solitários lugares embalsamados ao peso do passado, em que tudo cristalizou serenidade, em que coisas e gentes existem para sempre, apetece-me só pegar em tudo isso, mitos e musas e imagens, pinturas sobre tela e sobre gesso, e levá-los para casa, construindo um sacrário dessacralizado, metê-los no meu quarto e olhá-los, tê-los fixos nos olhos e dormir sob o fixo olhar deles, e vencê-los, e sê-los; ignoro contudo se (e até suspeito que) isso (não) é possível; quero dizer exactamente que suspeito que não; mas que fazer, enquanto a certeza não for mais que apática suspeita? a dúvida arruína-me, há estórias que por mim dentro furam minas; só sei que enquanto me não vir de todo livre delas, não serei nunca novo e novamente livre; quero partir, deixar irmãos e país, fantasmas do meu espírito, e ter alguma vaga, longínqua, vária esperança de um regresso longínquo; pais e filhos sucedem-se em ciclo sobre ciclo; eis que imagino ou sonho, nos meu olhar aberto, um filho ignorando o pai, tempos distintos, adversos, duas idades opostas na história do humano, dois andamentos, adágio, andante, da mesma dialéctica ou de acerbo concerto; até que, assim inesperadamente como tudo na vida que, bem no fundo, nunca nos pertence, o pai se suicida não se sabe porquê e o filho se interroga sobre aquilo; talvez que afinal também o pai soubesse do abismo, ou apenas soubesse que algures existe abismo; e o filho se interroga e se interroga, sem resposta; porque não há resposta; talvez que o pai sofresse, amasse, odiasse, na distância do seu isolamento, mas agora está morto, não resta senão a inútil, infatigável procura desse tempo que, contudo, mesmo se encontrado, será e terá sido sempre um tempo de doença (sei que estou doente e não tenho remédio, que fazer?); o pai portanto morto, suicidou-se, é impossível perguntar-lhe, pedir-lhe a solução, querer travar com ele um póstumo diálogo, agora que podia, estando do outro lado, deixar de ser um estranho, um estrangeiro, inimigo talvez, cada vez mais perdido; e essa pessoal dificuldade era agora total, era agora perfeita; e temo que ela o seja desta vez para sempre; que fazer? temos sexo, usemo-lo; temos mãos, trabalhemos; que a nossa lamentação ao menos seja um canto verdadeiro; tenho asco e tristeza quando o penso, mas se não pensasse isto tê-los-ia na mesma; pois pensemos; a salvação não está senão em mim, no meu sexo, no prazer, ou num filho talvez; se fui talhado para pertencer ao medo, se um pânico me come e me alimenta, seja eu enfim e mesmo, e não sem desespero; seja eu para mim um homem, e um deus que se ergue do seu leito nas trevas; são horas de levantar-me, horas de tentar ser; ser, sendo.

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