Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

Vale Abraão (Agustina Bessa-Luís)

CAPÍTULO 1
O ROUXINOL

«A margem esquerda dos rios não apetece tanto»

«Ema cresceu em condições precárias para o sentimento e favoráveis aos segredos da vida, que em tudo se identificam com o desejo e os seus imperativos. A solidão desperta cedo o coração humano e distancia as pessoas da unidade em que as coisas acontecem. Aos quinze anos Ema já tinha amado, e o amor para ela era algo de passivo e tão distante como uma ideia que já não surpreende porque é uma ideia inatingível. Amara por efeito dum olhar que mal se aflora e tudo põe em causa: a liberdade e a vontade de expiação. Era uma menina dócil, no entender das mestras e das criadas, mas era sobretudo distraída de tudo o que não fosse uma fuga, um plano de fuga, sempre adiado e sempre prestes a resolver-se.»

«Vivia muito em casa e ganhou um gosto expansivo e um pouco selvagem pelo reino doméstico, onde ela dominava, no coro das criadas que a adulavam e que lhe rendiam toda a espécie de agrados. De resto, não faltava entre elas um aconchego erótico, feito de segredos, de punições, de confidências, de quezílias partilhadas, de afeições preteridas e ciúmes desesperados. A casa duma só ama, e uma ama jovem e muito formosa, é um vespeiro de amores e seus contrários, que são ainda amores.»

«O Porto, como cidade grande, consumia os pecados de toda a província como se consumisse fruta fresca.»

«Mas, com Ema, as coisas começaram a decompor-se. Ela significava a extremidade dalguma coisa, a sua beleza constituía uma exorbitância e, como tal, um perigo.»

«A beleza dela confunde-se com uma espécie de génio.»

«Ema percebeu que só podia fazer uma coisa: ceder, dissimular, dar-se por morta.»

«A beleza parecia abrir-se sobre a superfície sedosa duma dor dormente. Era como uma fera que tem fome, um animal pequeno ainda, mas cujo porte denuncia já todas as graças da vontade predadora. Sentia que os laços com a mediocridade e o amor dos caminhos da infância estavam soltos; assim como soltara a massa dos cabelos pretos, também o coração perdia uma espécie de constrangimento onde, no entanto, ele bebia uma felicidade nunca mais recuperável.»

«secreta praxe que há entre amos e escravos: uma indecifrável relação de amor e desprezo mútuo»

«a rapariga crescia insatisfeita de si própria, e era assaltada muito cedo por uma curiosidade sobre o amor que era uma forma narcísica de se comprometer nele»

«Suspeitava que os amantes eram melhores provas do seu conhecimento interior; que só eles podiam ser uma via de acesso para ela própria. Enquanto se iniciava no período do enamoramento, a mulher viva espontaneamente, amava-se por intermédio do retrato que dela fazia o amante. Mas isso não durava; voltava a cair nas dúvidas impostas desde a infância: que era insignificante e efémera em todos os seus actos.»

«O que elas invejavam nos homens não eram os órgãos genitais, mas o que eles representam: uma criatura completamente prestável aos jogos do acaso e livre da submissão que constrange o perverso, o mal visto, o apaixonado pelo seu próprio mérito, a lançar-se debaixo dum comboio ou a comer um punhado de arsénico.»

«O que era o amor? Ema achava-o um derivativo duma vocação profunda e inflexível; um luxo que simboliza paisagens que a ninguém é dado ver; sonhos, apetites, manias que nada mais são do que o desejo de ser uma outra pessoa, de arrancar desses símbolos do corpo (o sexo e os olhos que primeiro pecam) a natureza da pessoa, em toda a sua difusa corrente de movimentos.»

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