Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

Cinzas (José Gomes Ferreira)

1948-1950

(...)

IV

Deste-me a pele, deste-me os lábios, deste-me os seios
e agora dás-me a dor do tamanho dos teus olhos
de poços fundos...

Eu que tanto sonhei com a outra.
A de criar mundos.


(...)

VI

As coisas que a noite me ensinou
desde domesticar estrelas
a esvaziar a lua
dos segredos que douram os medronhos!

Foi com ela que aprendi
a ler nos teus olhos
tudo o que escondes em ti
na transparência do amadurecer dos sonhos.


(...)

X

E ficámos para sempre nos olhos das aves
naquela noite em que os corações das flores
bateram no chão das nossas sombras.

Mas eras tu de facto que ias a meu lado?

Ou o meu sonho de ti
num corpo aproveitado?


XI

(...)

Ah! estou tão farto de suor mental!
E tu cheiras tão bem
a pele natural.


XII

Cio.
Fogo de que só se sente o frio.


(...)

XV

Toquei-te
e de súbito percebi
que não eras apenas um enfeite
com cabelos de diadema
e o sol a respirar em ti.

Mas o outro lado do Problema
com a beleza por alibi.


(...)

XVIII

(Outra vez a Inventada. Grito para o Ar.)

Amo-te, amo-te, amo-te, amo-te,
Tu-nao-sei-quem,
com mãos de cardos
que descem aos caminhos
para afagar as crianças
de cabelos com asas de vento
a correrem por entre as árvores inquietas de frutos novos...

Amo-te, amo-te, amo-te, amo-te,
a ti que te inventei
com seios de espinhos
para sentir bem na pele
a nudez rude da morte natural
quando me levares pelas nuvens
através daquela ponte sem margens do outro lado...

Amo-te
com estes olhos firmes direitos às cinzas das pedras.


XIX

(...)

acender no teu corpo
a Primeira Fogueira!


XX

(Aproveita a dor pessoal para te imaginares maior.)

(...)


XXV

Deitada ao comprido na relva
vi-te de repente com os cabelos verdes
e os braços erguidos
a abrirem-se em flores de dedos...

... Flores carnívoras
que estrangulavam o vento
por doçura de capricho...

(E então senti
na Terra e em ti
respirar o mesmo bicho.)


(...)

XXVII

Agora só cães nos olhos de quem rilha
o último osso do amor caído de outra mesa...

(Mas ai também de quem é puro
por viver numa ilha
cercada por um muro!
- a pensar na impureza.)


(...)


XXX

Rasguei-te o vestido de alto a baixo
com uma faca de olhos

(...)

... Esta chuva miudinha
que mal te roçou na pele
se transformou em cabelos longos de pudor de água.


XXXI

(Fase cínica.)

(...)

Agora, dêem-me uma deusa passageira
mais nuvem do que mulher
(...)
e a boca a rir por fora
todas as lágrimas que quiser...

(Uma nuvem de sonho à hora.)


XXXII

Amor...

Algodão em rama
com brilho de pus a fingir de sol na lama.


(...)

XXXVI

(O Carlos de Oliveira chamou-me «paradoxo vivo».)

Verdade: onde estás?
No que penso, ou no que digo em desarrumo?
- Duas pinças da mesma tenaz
fincadas em fumo.


XVII

(Desvio lírico do problema.)

Por dentro do perfume das flores
já não anda a tua boca
a beijar as estrelas
(...)


XXXIX

(Conclusão importantíssima para continuarem a não me entender.)

(...)


XLIII

(...)

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite para o ritual do Grande Desfazer: «Fulano de tal comunica a V. Ex.ª que vai transformar-se em nuvem hoje às 9 horas. Traje de passeio.»
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir à despedida. Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio. «Adeus! Adeus!»
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento, numa lassidão de arrancar raízes... (primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos...) a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen... como aquela nuvem além (vêem?) - nesta tarde de outono ainda tocada por um vento de lábios azuis...

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