Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

Café (José Gomes Ferreira)

1945-1948

(...)

II

Que me importa
que o mundo não tenha sentido
se por aquela porta
entra o bafo comovido
desta luz macia
que em flores se gera.

Viva a anarquia
da primavera!


(...)

V

(Epitáfio.)

(...)

Tu que não morreste na cama
mereces o destino diferente
de não te desfazeres em lama
como toda a gente.

(...)


VI

(...)
Caídas no lodo
é que são estrelas.


VII

Andámos toda a noite calados e sós
de jardim em jardim, na lua dos bancos...
(Que bom! Começou enfim o silêncio entre nós. (...))


VIII

(...)
O pântano é que sonha
a nuvem do céu.


(...)

XII

Vais perguntar outra vez por que existes?
(...) Para ficares com os olhos do tamanho de ilhas tristes?
(...)

(Rapaz! Mais um café!)


(...)

XV

Os teus olhos suplicam nuvens...

Mas eu só te dou vida
despida.

Os teus olhos suplicam nuvens...

Mas o amor é uma chama
que arde melhor na lama.

Os teus olhos suplicam nuvens...


(...)

XVII

(...)

Que felicidade
o mundo não ser apenas
o nevoeiro
da minha imaginação!


XVIII

(...)

E então entro no Café de cabeça levantada
como se levasse de rastos,
à chicotada,
um rebanho de astros...

(...)


(...)

XXI

(...)

E surgiste intacta, sem suor nem defeitos,
na majestade da pureza que só imagino
quando vejo o sol feminino
dos teus peitos.


(...)

XXXI

Num desespero vão
os olhos circundo
pela Natureza.

Ah! quando perderei a ilusão
de que a minha tristeza
dá sentido ao mundo?


(...)

XXXVII

(...)

Eu não nasci para apodrecer de glória
nos jazigos das selectas
ou para andar com a dor de fora
com os outros poetas.

(...)


XXXVIII

(...)

Só não percebo
por que não vendem o luar a metro
e as estrelas a quilo
(para caixões de crianças).


XXXIX

Entrei no Café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
- a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
a melodia sem contorno
deste acaso de existir
- onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.


(...)

XLI

(Olho para o espelho em frente.)

A invenção dos espelhos
(...)
- para o romance dos olhos verticais.


XLII

(Continua a obsessão do espelho-rio-vertical. Improviso para emendar um dia.)

(...)


XLIII

(Um conto de fadas a respeito dos espelhos. Que remédio! Não aparece ninguém, ninguém!)

Num dia de sol mágico
os espelhos resolveram não reflectir as caras,
mas apenas o que os olhos traziam das ruas
e na água da sede.

Resultado: no espelho da menina triste
apareceu desenhada a bolor
a obscenidade do musgo da parede.


XLIV

(Outro conto mágico. Olha! Lá vem um maçador. Esconde-te atrás de fingir que pensas e sonhas.)

A conspiração dos espelhos continuou.

E na manhã seguinte
à hora dos relógios combinados
todos os espelhos abriram os alçapões secretos
para afogar as imagens dos homens por fora
e só lhes mostrarem os esqueletos negros.

Mas ninguém pensou na morte.

Pelo contrário.
Os rapazes inventaram novas gravatas de brilho transparente.
As raparigas envernizaram as caveiras de mais loiro.
E os jornais de moda
aumentaram o decote das vértebras
- para se ver melhor o mundo do outro lado.


XLV

Muros de cinzas azuis nos olhos
- para ninguém entrar.

Nem o mundo, nem as asas, nem o sol,
nem o suor das flores.

Apenas a tristeza
da solidão dos espelhos desabitados.


(...)

XLIX

(A mesma ideia obsessiva.)

O pior é se a máquina emperra
e de repente em vez de folhas surgem nas plantas sexos amarelos
(...)

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