Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

Dodecaedro (Caio Fernando Abreu)

II. Marcelo

Acabei de me masturbar. Não lavo as mãos para começar a escrever. O esperma vai manchando a folha, misturado às gotas de suor que escorrem dos pelos do meu peito. Queria saber ficar tranquilo como Linda, que se limitou a sorrir dos cães, aumentando o volume do som para erguer uma das pernas no ar, lentamente, trazendo o braço direito estendido até a frente do tronco. Queria poder espatifar copos no chão da cozinha, feito Arthur. Quem sabe apenas levantar uma das sobrancelhas, feito Martha, pedindo irônica a ele que pelo menos evite quebrar também portas e janelas, para que os cães não entrem na casa. Nada me vem pela harmonia, pela violência ou pela razão. Com o sexo é que sinto.
Decidi que me masturbaria no momento em que Júlio entrou correndo para avisar que alguém havia soltado os cães. Poderia ter procurado Anaís, que sempre deixa de lado suas cartas, seus búzios, pedras e dragões para me abrir as pernas. Um pouco distraída, às vezes meio bêbada, como se não fosse eu, como se pouco importasse, tira sem pressa minha roupa, passa as mãos nas minhas costas, fecha os olhos, às vezes lambe meu pau, escancara as coxas para que eu a penetre com vontade cada vez maior de machucá-la, de fazê-la torcer-se e gritar de dor no meio do prazer. Nunca grita. Apenas suspira, não sei se gozo ou desgosto, quando ejaculo e volta a fumar, a beber, a preparar feitiços, a cantar canções vadias. Talvez por tudo isso, também porque sabia de Anaís atrás de mim, tenha corrido à cozinha para contar a Raul.
Sentado num banco, quase no escuro, ele estava debruçado sobre a mesa como se escolhesse feijões. Parecia rezar, a mão direita pousada sobre uma dessas esquisitas xícaras coloridas que Martha comprou na cidade. Antes de acender a luz, por cima de seu ombro, por baixo da camisa desabotoada, eu podia ver um pedaço da carne tão branca que quase brilhava na penumbra. Quis então encostar nele, para que não gritasse, para que sentisse como uma proteção o calor do meu corpo colado às suas costas. Depois, enquanto deixasse a cabeça tombar para trás, apoiando-se contra minha barriga, eu faria com que minha mão invadisse o pano fino para beliscar-lhe o mamilo até que gemesse baixinho, repetindo meu nome. E só mais tarde, talvez, contaria dos cães, quando já estivéssemos inteiramente nus, enrolados um no outro sobre os ladrilhos frios. Tudo estava preparado. O que aconteceria já estava desenhado no ar da cozinha, bastava que eu fizesse o primeiro gesto, acompanhando o esboço de um desenho pronto. Foi quando uma voz que me pareceu a de Ísis gritou ao longe e, sem planejar, meu dedo apertou o botão da luz. Coloquei a mão no ombro dele. Apertei forte. E repeti exatamente o que Júlio me dissera há pouco: soltaram os cachorros loucos.
Não queria assustá-lo. Mas Raul ergueu-se brusco, derrubando o banco, olhando para mim como se não acreditasse. Com aquela luz dura derramada sobre a cara dele, eu via suas pupilas crescendo para invadir o azul desbotado da íris. Talvez porque meus olhos estivessem acostumados à sombra, como num desses truques de parque de diversões onde mulheres se transformam pouco a pouco em feras, de repente vi nossos doze rostos, um a um, sobrepondo-se ao rosto dele, inclusive o meu. Quando seus ossos um tanto arredondados ganharam os contornos vagos do rosto de Anaís, estendi a mão e puxei-o para mim. Tinha cheiro de ervas verdes. O cheiro de ervas verdes do corpo de Raul misturou-se ao cheiro de suor do meu próprio corpo. Eu tinha estado o dia inteiro na horta, sem camisa, embaixo do sol. Eu trazia no bolso o primeiro tomate maduro. Com uma das mãos, forcei meu amigo a ficar de frente para mim, muito próximo. Com a outra, tirei do bolso o tomate maduro. Ele me olhava sem compreender. Ouvi um dos cães uivando, perto do poço, pensei, e antes que o uivo terminasse e outro cão começasse então a uivar, entre talvez o primeiro e o segundo uivos mordi muitas vezes a boca dele, interrompendo-me apenas para repetir que estávamos perdidos.
(...)

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