Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

Valsa nº6 (Nelson Rodrigues) II

SÔNIA
O que Paulo fez com minha filha não se faz! Não foi papel! (...) Mas Paulo... É um doce nome... E amoroso... Seria meu primo? Ou quem sabe se namorado? Ou noivo? Não, não! Se eu tivesse namorado – ou noivo – ele estaria, aqui, de mãos dadas comigo... Noiva, eu? Mas de quem? Digam! Eu tenho a face, as mãos, os olhos de uma noiva? Há uma grinalda, em mim, que eu não vejo? Nos meus cabelos? Uma grinalda atormentando minha fronte? Mas, então, terei de ser noiva de alguém! E se eu fosse noiva de ninguém? Paulo é apenas um nome... um nome suspenso no ar, que eu poderia colher como se fosse um vôo breve. Mas um nome vazio, sem dono. Eu não me lembro de nada, a não ser de nomes... Por isso, muitos têm medo de mim... E ninguém me contraria... Porque estou num mundo... Sim, num mundo em que tudo que resta das pessoas são os nomes... Por toda a parte... Nomes, por todas as partes... Descem pelas pernas da mesa... Se enfiam nos cabelos... Eu esbarro neles, tropeço neles, meu Deus! Até, quem sabe se... Talvez Paulo esteja, aqui, a meu lado... Rindo de mim... Não, Paulo, não! Me abraçando! Ou beijando, quem sabe? (...) Sejas quem fores, eu te odeio! Odeio a um Paulo que não conheço, que nunca vi... Mas... Se eu não conheço Paulo, ele poderá ser um de vós!... Talvez um de vós seja Paulo... Mas eu não vejo o vosso rosto... Nem o de ninguém aqui... E cada um de vós? Tem certeza da própria existência? Ou sois uma visão minha, vós e vossa cadeira? (...) Paulo, eu te odeio, e por quê, Paulo? Que fizeste de mim, do meu rosto e dos meus 15 anos? Se eu pudesse enterrar as unhas na carne macia do teu pescoço! Dize, ao menos, o que eu sou de ti? Noiva? Prima? Cunhada? Que sou eu de ti? Esperem, esperem! Estou-me lembrando! Aos poucos... Paulo cresce como um lírio espantado... Vejo a testa, as sobrancelhas, os olhos, o puro contorno dos lábios! Mas tua fisionomia está mutilada! Faltam várias feições! Agora te vejo de corpo "quase" inteiro... "Quase", porque eu me lembro de tudo, sim... Só não me lembro dos teus sapatos. De que cor, de que modelo eram? E como não consigo me lembrar dos sapatos, tua imagem aparece descalça na minha lembrança. Por que não te calças, Paulo? (...) Deve ter acontecido alguma coisa! Que fizeste, Paulo? Me beijaste, foi, querido? Ou me traíste? (...) E se já me beijaste, que seria hoje este beijo senão uma sensação perdida? Porém, é que... Fizeste uma coisa, sim, da qual não me lembro, uma coisa, não sei, que me separa de ti e... Ela é muito meiga! Uma boa menina. Educada. Se é. Sou, não? Mas ninguém sabe as ganas que tenho. De te bater! De te estrangular, Paulo! Talvez sejas doce como um primo criado com a gente, mas... O punhal, que papai me deu de presente... De prata. Eu cravaria em ti este punhal! Sabe, Paulo? Eu escondia meu ódio, e o dissimulava dia e noite. Se bem que eu tinha muita insônia. Uma insônia cravejada de ódio! Mas roubaram o meu punhal... (...) O meu punhal de prata... De penetração macia, quase indolor... E naquele dia, te inclinaste, Paulo... para um beijo rápido. Mas Paulo! Não beijaste a mim! A mim, não... Beijaste alguém, que não era eu, que sou tua namorada ou noiva! A mulher a quem beijaste ainda ficou de boca entreaberta... Eu vi pelo espelho, tudo! Mas quem foi, Paulo, quem foi? (...) Mas eu não odeio Paulo! Eu disse que odiava? Mas, não, nunca! Tudo não passou de um mal-entendido! Pois se até gosto muito dele! Tenho verdadeira adoração! (...) Saibam que amo Paulo! É tão bonito que se eu pudesse... vivia acendendo círios diante dele.

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