Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

D'este viver aqui neste papel descripto*: cartas da guerra (António Lobo Antunes)

14.1.71

Minha jóia querida
Escrevo-te ainda de bordo do Vera Cruz, na véspera da chegada a Luanda, a fim de colocar esta carta no correio mal chegue às Áfricas. As saudades são já indescritíveis, e a solidão enorme, ao fim de 9 dias de barco, apesar do luxo em que aqui se vive (os oficiais, claro), no aspecto de camarotes, salas e comida. Ao jantar e ao almoço, uma velha oxigenada, com duplo queixo e chinelos, toca piano com uma dificuldade míope, e ao lanche (chá e bolos), servido por uma nuvem de criados, a orquestra «Vera Cruz», qual deles com a melhor pinta de chulo lisboeta, magrinhos, brilhantinados, de olhar maroto, esfolam música de cabaré de putas. À noite há cinema no salão, do tipo dos filmes de Santa Margarida (Um quarto para dois, Garotas e recrutas, etc), e por vezes, no escuro, tenho a sensação horrível de que, se me levantar e sair, posso meter-me no carro a caminho de casa e de ti. Nunca te esqueças que te amo com todas as forças que tenho, e que estou contigo sempre e em todos os momentos. É horrível ver a orquestra a tocar, para uma sala cheia de tipos fardados, afundados nas cadeiras numa melancolia sem remédio: sinto-me tão arrependido de não termos ido dançar mais vezes, e apetece-me tanto dançar contigo, sinto-me tão arrependido dos momentos em que discutimos, e apetece-me tanto pedir-te desculpa, de lágrimas nos olhos juro, e dizer-te que gosto sempre e tudo de ti.
Consegui ainda escrever 3 postais da ilha da Madeira, que é de uma beleza extraordinária, sob um céu de chumbo e de calor. O Funchal é uma cidade diferente de todas as outras que conhecemos, e com um aspecto estranhamente inglês: se eu voltar havemos de lá ir um dia em lua de mel, sem o nosso filho, sozinhos os dois como no Algarve.
Não te mando ainda o SPM porque o não sei: a confusão é enorme. Em princípio, ficaremos em Luanda (no Grafanil) seis ou sete dias, e depois faremos uma horrível viagem de 2.000 km de camioneta até Nova Lisboa, de comboio até ao Luso, já armados e escoltados, e de camioneta de novo, até Gago Coutinho: 6 dias sempre em movimento, com as consequências inerentes e os perigos respectivos, de modo a chegarmos cerca do fim do mês, para uma estadia que deve demorar 14 ou 15 meses, antes do recuo para uma zona melhor. O comandante deve, talvez amanhã ou depois, fazer a distribuição dos médicos pelas companhias. Um deve ficar em Gago Coutinho, onde estacionarão 2 companhias e um pelotão de morteiros, outro a 90 km e outro a 120 km com as companhias destacadas. Claro que o melhor, em teoria, seria ficar em G. Coutinho, que parece ter uma pequena pista de aviação e um helicóptero, mas a distância para Luanda é gigantesca. A missão do batalhão será policiar a fronteira com a Zâmbia, para não permitir a entrada dos elementos do MPLA que tentam, aí, estabelecer um corredor até ao norte. O problema principal são as minas, mas eu vou fazer o possível para ver onde ponho os pés.
Contra o que esperava não enjoei. O único problema é a orelha, que me não dá descanso... O calor é enorme e grosso: dá-me a sensação de respirar a palha de um colchão.
Meu amor eu adoro-te e penso em ti sempre, com muita saudade muita ternura. Tenho muita pena de não poder assistir ao crescimento do nosso filho. Como vai a barriga? Eu tirei, tiraram-me no barco uma fotografia que vou tentar mandar embora não esteja grande coisa, para te lembrares melhor de mim. O dia da despedida, lembro-me dele como de uma coisa que se tivesse passado durante uma anestesia; o cansaço, o sono, a saudade, a agitação entravam e saíam de mim numa leveza gasosa. Já nem me lembro bem da família que lá estava e não estava. Mas, do barco, procurei-te sem te encontrar: uma tia Luísa minúscula disse-me, por gestos, que te tinhas ido embora, e foi só então que eu tive a certeza de que me ia embora. Fui para o camarote e sentei-me na cama e ouvia os gritos e os choros sem pensar em nada, e não chorei porque um homem não chora. E nada disto importa porque nos temos um ao outro até ao fim do mundo. Ao barco chegavam constantemente telegramas, recebi dois da tua família mas nenhum de ti. Ainda fui várias vezes ao comissariado mas não havia lá mais nada para mim.
Amanhã chegaremos às 2 da tarde. Entretanto, já só faltam 103 semanas, todas curtas. Menos umas 10, de férias. Não é assim tão mau como isso.
Agora vou-me despedir.
Muitos beijos e muitas saudades e muitos beijos outra vez do António

Gosta sempre de mim. Imagino o frio que aí estará, a nossa casa de que me hei-de lembrar sempre, apesar de nunca mais voltarmos para lá, o porteiro, a rua, os móveis, a cozinha, a cama com o cobertor ao meio, as gravuras, e vejo como fui feliz aí contigo, como tenho sido sempre feliz contigo, como gostaria de voltar, de voltar depressa para poder ver-te, tocar-te, falar-te, meter a minha chave na fechadura do teu corpo, a língua na tua boca, apertar-te o peito com as mãos, morder-te o pescoço, voar, lembro-me de pormenores absurdos, do sinal do peito do teu pé, do teu dente de ouro, do canal da tua nuca, e gosto absurdamente de todos: minha senhora, eu amo-a. Se eu não a conhecesse persegui-la-ia pelas ruas com propostas sórdidas e veementes. Recordo-me do primeiro dia em que a vi, do seu perfil de Boticelli, recordo-me do ano seguinte na praia, do seu cabelo preso atrás e da sua risca ao meio, do seu aspecto de retrato de Ingres, recordo-me do seu cabelo cortado e do seu ar de midinette, e amo perdidamente todas as suas encarnações, sem poder escolher entre elas. Amo a sua gravidez, os seus gestos, os seus sorrisos e as suas fúrias. Amo as suas zangas e a solenidade calada e digníssima dos seus amuos. Amo as suas recriminações e os seus beijos. E amo o seu filho, o filho de Vossa Excelência, meu amor.


* «D'este viver aqui neste papel descripto» era o título que o nosso Pai tinha escolhido para o que veio a ser o primeiro romance publicado. Na altura foi recusado pela editora e todos o conheceram como Memória de elefante. É uma citação de uma carta de Ângelo de Lima (1872-1921) ao Prof. Miguel Bombarda. Este poeta passou vários anos da sua vida internado nos Hospitais de Conde de Ferreira, no Porto, e Rilhafoles, em Lisboa, onde foi seguido por Bombarda, e onde viria a morrer. As suas Poesias completas foram publicadas em 1971, e foi sempre um autor muito apreciado pelo nosso Pai e um caso clínico por ele estudado; em 1974 ganhou o Prémio Sandoz de Psiquiatria com «Loucura e criação artística: Ângelo de Lima, poeta de Orpheu», trabalho apresentado à Sociedade Portuguesa de Neurologia e Psiquiatria. (Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes)

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