Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

Daniel Faria [1/2]

EXPLICAÇÃO DAS ÁRVORES E DE OUTROS ANIMAIS

EXPLICAÇÃO DAS ÁRVORES E DE OUTROS ANIMAIS

Depois das queimadas as chuvas
Fazem as plantas vir à tona
Labaredas vegetais e vulcânicas
Verdes como o fogo
Rapidamente descem em crateras concisas
E seiva
E derramam o perfume como lava

E se quiséssemos queimar animais de grande porte
Eles não regressariam. Mas a morte
Das plantas é a sua infância
Nova. Os caules levantam-se
Cheios de crias recentes

Também os corações dos homens ardem
Bebem vinho, leite e água e não apagam
O amor.


Como doem as árvores
Quando vem a primavera

E os amigos que ainda estão de pé


(...)
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim

E bebe


(...)

Rebento no interior do trigo
E de qualquer planta que se assemelhe a ti


EXPLICAÇÃO DAS CASAS

(...)
Ainda não há lugar no mundo onde possa sossegar de tu não seres
O vazio que persiste à minha beira.

(...)


Mesmo no interior do quarto
És o lado de fora da casa
(...)


Sei bem que não mereço um dia entrar no céu
Mas nem por isso escrevo a minha casa sobre a terra


DO INEXPLICÁVEL

Estranho é o sono que não te devolve
Como é estrangeiro o sossego
De quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
De quem já só por dentro se ilumina
E surpreende
E por fora é
Apenas peso de ser tarde. Como é
Amargo não poder guardar-te
Em chão mais próximo do coração.


O meu projeto de morrer é o meu ofício
Esperar é um modo de chegares
Um modo de te amar dentro do tempo


HOMENS QUE SÃO COMO LUGARES MAL SITUADOS

HOMENS QUE SÃO COMO LUGARES MAL SITUADOS

Sei que o homem lavava os cabelos como se fossem longos
http://revista-aberta.blogspot.pt/2009/11/sei-que-o-homem-lavava-os-cabelos-como.html


Não levantemos os homens que se sentam à saída
Porque se movem em seus carreiros interiores
Equilibram com dificuldade uma ideia
Qualquer coisa muito nítida, semelhante
A uma folha vazia
E põem ninhos nas árvores para se libertarem
Da gaiola terrível, invisível muitas vezes
De tão dura
Não nos aproximemos dos homens que põem as mãos nas grades
Que encostam a cabeça aos ferros
Sem outras mãos onde agarrar as mãos
Sem outra cabeça onde encostar o coração
Não lhes toquemos senão com os materiais secretos
Do amor.
Não lhes peçamos para entrar
Porque a sua força é para fora e a sua espera
É fé inabalável no mistério que inclina
Os homens para dentro
Não os levantemos
Nem nos sentemos ao lado deles. Sentemo-nos
No lado oposto, onde eles podem vir para erguer-nos
A qualquer instante


SE FORES PELO CENTRO DE TI MESMO

(...)

SUNAM (2 Rs 4, 8-37)

(...)
Era meio-dia sobre os meus joelhos
(...)


A MULHER ADÚLTERA

Não turbam a água dos meus olhos
As pedras que me atiram sobre o corpo

As tuas mãos vazias este muro
Branco me doem muito mais


FILHO PRÓDIGO

Cada cidade acrescentou a minha fuga
E o desvio aproximou-me do perigo.
Além do que mereço, além, agora
Queria ser deserto e trabalhar nos campos
Abençoando a fome enquanto ceifo o trigo.


PARA O INSTRUMENTO DIFÍCIL DO SILÊNCIO

Trago os instrumentos do fogo
Ponho-os na boca
Ponho-os no coração

Trago os instrumentos da respiração
– Uma montanha, uma árvore que lhe dá abrigo –
(...)

E trago todos os instrumentos na circulação do sangue e na ocupação permanente
Das mãos
Para o instrumento difícil
Do silêncio


(INÉDITOS)

Poderia ter escrito a tremer de respirares tão longe
Ter escrito com o sangue.
Também poderia ter escrito as visões
Se os olhos divididos em partes não sobrassem
No vazio de ceguez
E luz.
Poderia ter escrito o que sei
Do futuro e de ti
E de ter visto no deserto
O silêncio, o fogo e o dilúvio.
De dormir cheio de sede e poderia
Escrever
O interior do repouso
E ser faúlha onde a morte vive
E a vida rompe.
E poderia ter escrito o meu nome no teu nome
Porque me alimento da tua boca
E na palavra me sustento em ti.


Precisava de falar-te ao ouvido
http://revista-aberta.blogspot.pt/2010/06/precisava-de-falar-te-ao-ouvido-daniel.html


A espessura do sol
Cabe na boca

O verão
Está quase a terminar

Não
O diremos a ninguém

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