Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

A sul de nenhum norte: 1

trago as mãos sonâmbulas de te esperar ao relento na noite.
há muito que deixei de trazer mapas nos bolsos.
respiro apenas a lonjura.
esse país onde habitamos há demasiados séculos.
à deriva, o corpo.
nem a voz se comove já num abraço.


(...)
(e tu tremeste-me nas mãos)
à espera de outra coisa qualquer
semelhante ao primeiro de todos os dilúvios
(ao primeiro de todos os beijos)


(...)

nenhuma flor a tecer manhãs nas janelas
nem a abrir palavras na boca

eu quis a morte lentamente
como se morrer fosse apenas dormir para sempre

(...)

eu quis um dia fechar o mar num aquário
mas desconhecia o rumor das ondas contra paredes de vidro
desconhecia a fome dos corações fora de água

(...)


os dias são feitos de noites intermináveis
de canções que se enroscam ruidosamente ao corpo
e eu trago o inverno a respirar-me junto à face
trago as mãos rasgadas
sem bolsos onde se encolherem de frio
é mais do que certo:
se te visse regressar manhã dentro
não sobraria apenas a geometria das árvores em redor do coração

Ana C.


ACUPUNCTURA DAS FERAS

1.
Temos o medo.
Ele amanhece connosco.
A vontade é não ter braços para o receber,
Antes afastar o eco de tudo o que está dentro.
Lembramos em defesa o sabor da fruta,
nesse tempo em que os morangos eram ainda pequenos
e as ameixas na árvore se dividiam em inconfundíveis cores,
duas apenas.

2.
Com memórias de amor por quem fomos
Levantamos a tarde e o corpo prossegue.
Confesso: Uma vez perdi um amigo por não saber a cor do seu nome.
Não convém atravessar a vida sem olhar

3.
Temos a esperança.
Ela dorme sem abrigo, aí onde consegue estender o coração.
Todas as noites alguém nasce
E a isso chamamos a acupunctura das feras. Ou amor.

João Villalobos


I

vejo-te na soleira da porta
hesitas. em cena apenas estou eu
penso em mudar-me mas entre erros
e desculpas falta-me espaço

se contares histórias serão daquelas que
ninguém quer ouvir
relatos de passeios de domingo onde há sempre ruínas
sim, restaram apenas ruínas escavadas no interior dos olhos

(...)

Maria Sousa


Não, voltemos atrás,
Descubramos toda a violência contida
Em cada dobra de cada livro.

A paz se apascenta na demora
E rasga artifícios,
Mesmo os mais bondosos.


Sim, qualquer coisa que funcione
E que traga resultados
Palpáveis.

(...)

Que seja útil,
Mesmo que nos faça infelizes.


Não, cair ajuda
A beijar o chão.
Por mais que grites
Cresces tão devagar
Quanto as folhas
Do mais vulgar limoeiro.

É assim a vida,
Todos acabamos por florir alguma vez.


Sim, por menos que isso
Deixámos fugir a felicidade,
Resta-nos respirar pausadamente
Com outros pulmões
Que não os habituais.

(...)


Não, não tinham vertigens nem afrontamentos,
Mas demoravam-se até chegar
Ao mais alto ponto.

Apenas para contemplar,
Diziam.


Sim, poucos deram por ele,
Quase ninguém quis saber,
Mas depois todos se alinharam
Para receber os lucros,
Indignados por terem sido,
Cada um,
O único a dar atenção desde início.

Ou quase todos,
Ainda há quem tenha vergonha.


(...)

A madeira é duma fragilidade
Metódica e paciente.
São de madeira os punhos
Elevados perante as seduções.

Rui Almeida


revista número um

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