27.1.12

Resposta a um inquérito sobre pornografia (Jorge de Sena)

«Se alguma coisa há, num mundo que perdeu por completo a noção do sagrado (que, nas suas grandes manifestações, sempre inclui a sexualidade) e guardou apenas a da «proibição legal», se alguma coisa há que deva ser sagrado, repetimos, é o prazer sexual entre pessoas mutuamente concordes em dá-lo e recebê-lo. E não me venham – reacionários ou libertários – com a velha conversa do Amor, com «A» muito grande, que foi em grande parte inventada para degradar a sexualidade, e que se proclama ser a santificação do prazer sexual. O amor – EROS – existe, e é na verdade e felizmente uma força terrível. Por isso tantos cobardes físicos e morais lhe têm um medo dos diabos. Porque inclui, ou pode ser só, o prazer sexual. (...) E não me digam também a velha frase: depois do coito o animal é triste. Porque só é triste depois disso quem foi sujado no fundo de si mesmo por uma distorcida ideia do pecado, ou quem no prazer sexual busca uma afetividade que pode não existir, ou quem – e isso compreende-se – saiu humilhado de uma luta sexual em que as suas possibilidades estiveram abaixo das exigências da ocasião (e isto, paradoxalmente, é muito o que acontece aos «machões» que se julgam mais potentes do que são, e depois ficam tristes a pensar incestuosamente na mãezinha).»

«A pureza, quando existe (e quem quiser deve ser livre de poder resistir às tentações e de confinar-se nela) é, em geral, uma inibição psicológica, ou um terror do sexo, imposto pelos costumes sociais, cujas consequências podem ser desastrosas para a vida sexual futura do indivíduo (…). Porque, como tudo (e é o que nos distingue da animalidade, e não o «amor»), o fazer amor é uma arte, que se aprende; e todas as grandes civilizações (menos esta coisa miserável que se chama a civilização ocidental) souberam refiná-la. Por isso, embora não venha diretamente ao caso – ainda que venha mais do que parece, já que, etimologicamente, na sua origem grega, «pornografia» significa «tratado sobre a prostituição» – eu sou em favor da legalização de todas as formas de prostituição, como profissão protegida pela lei e vigiada pela saúde pública. Ainda que isso possa chocar muita gente, parece que, desde sempre, houve machos e fêmeas cujo único talento na vida, cuja vocação definida, é emprestarem o próprio corpo. E quem se vende ou quem compra (o que não tem nada que ver com capitalismo, mas com o direito de qualquer pessoa a dispor de si mesma, em acordo com outra) deve ter a proteção da lei contra redes de exploração, chantagens, etc., que, elas sim, são sintomas de exploração capitalista, associada à respeitabilidade burguesa.»

1 comentários:

Brás, Paulão disse...

http://revista-aberta.blogspot.com/2011/01/filmes-pornograficos-jorge-de-sena.html