17.1.12

Da reminiscência e da reflexão da mente sobre si mesmo (G.W. Leibniz)

Deparou-se-me recentemente o tratado de Nicolau Orégio sobre a imortalidade da alma segundo Aristóteles, escrito para Urbano VIII. Foi o próprio Papa, ainda Cardeal, que o encomendou para si. Ele diz que, para Aristóteles, uma coisa é o intelecto passivo – que é, de facto, imaginação – e outra, na verdade, o intelecto possível, que recebe as espécies inteligíveis imateriais. [Diz que] para Aristóteles, o intelecto agente não é Deus. [Diz que] Aristóteles achava que o intelecto separado não recorda, porque não há reminiscência sem imaginação. A mim, porém, parece-me que há alguma reminiscência per se de nós e da percepção, mas não da percepção na sua diversidade. E, com efeito, não haverá prazer nem dor sem imagens, nem tampouco estes existem sem reminiscência. Nem o próprio Deus teria prazer se não percebesse várias criaturas, que estão, para Ele, no lugar das imagens. Deus é a Mente perfeita e esta é a causa das suas próprias percepções. O que não acontece em nenhuma outra mente. Parece-me que sem a reminiscência nada do que virá a passar-se depois da morte nos diz respeito. Assim, haverá alguma reminiscência depois da morte, tal como naquele que adormece. A operação da mente mais admirável julgo ser esta: quando penso que eu penso e, no meio do pensar, reparo nisto – que penso sobre o meu pensamento e pouco depois admiro esta triplicação da reflexão. Logo depois, advirto que eu admiro e não sei de que modo admiro a própria admiração. E, fixado num único olhar, mais e mais entro em mim, como que sucessivamente, e eu mesmo frequentemente elevo o meu espírito por meio dos meus pensamentos. Para que tal aconteça é necessária alguma tensão dos nervos para que a força e a vivacidade de outras percepções externas seja debilitada e quebrada. De onde resulta que, por fim, nos cansemos com este esforço e sintamos dor de cabeça ou mesmo, se por acaso continuamos, que possamos enlouquecer. Mas muitas vezes não conseguimos provocar esta operação do espírito, nem mesmo se queremos. Isto acontece quando começamos a duvidar se podemos e pensamos nos obstáculos e fazemos nascer várias percepções externas como que para experimentar a dificuldade, exactamente da mesma forma que não podemos adormecer sempre que pensamos na dificuldade de dormir. De resto, uma vez entrados nesta recondução do espírito a si mesmo, ocorre algumas vezes que permanecemos nele algum tempo e só a custo, penosamente e com algum esforço, retornamos enfim às coisas exteriores. Tal como me sucedeu algumas vezes não conseguir esquecer uma coisa e durante quase uma hora pensar, contra vontade, no mesmo, a saber, quando pensava acerca desta mesma dificuldade relativa ao pensar, e atordoar-me com as contínuas reflexões sobre as reflexões. Ao ponto que quase comecei a duvidar se alguma vez haveria de pensar noutra coisa, e já receasse que esta intenção do espírito me pudesse fazer mal. Quanto mais me ocupava com estas coisas tanto menos podia expulsá-las do espírito, enquanto se prolongassem reflexões desta natureza. Se alguém desejar ter experiência disto, basta que alguma vez, na escuridão da noite, quando por acaso não consegue adormecer, comece a pensar sobre si e o seu pensamento e sobre a percepção das percepções e a admirar este seu próprio estado, e, assim, como que por vários golpes da mente, sucessivamente, [começar] a entrar mais e mais em si ou a ascender acima de si. Ele mesmo admirará este estado da mente, porventura ainda desconhecido para si. Além disso, nunca estamos sem outras percepções dos sentidos e sentimos, de facto, dentro de nós esta intenção do espírito, pela qual somos reconduzidos para dentro de nós, e suprimimos as coisas externas. É certamente daqui que se origina o cansaço que frequentemente acompanha as intelecções puras. Dei-me conta, além disso, de que esta percepção da percepção ocorre também sem caracteres. E assim também com a memória, pois recordar é perceber a percepção ou sentir que se sentiu, como diz Hobbes. Não consigo ainda explicar de modo suficiente como é que se produzem estes diferentes golpes do espírito, nesta contínua reflexão recíproca, nem os intervalos, por assim dizer, entre os golpes. Eles parecem ser produzidos pelo sentido que discerne no âmbito da intenção corpórea. Mas se observares cuidadosamente, aquele golpe, apenas faz que te recordes de que, um pouco antes, já tinhas isso mesmo no espírito – a saber, a reflexão da reflexão –, e faz que, por assim dizer, a observes e a designes pela distinta imagem que a acompanha. Logo, já estava antes e há, assim, continuamente na alma percepção da percepção até ao infinito e nesta consiste a existência per se e a necessidade da continuação da alma.

Tradução de Nuno Ferro

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