Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

Da rosa fixa (Maria Velho da Costa)

2.

Somos, repete-se, o que pudemos não perder sob a mira crescentemente diminuta, acerba e muito exacta - das mortes.


4.

Só a carne, combustível alado, acasala.


9.

Disse ele - reconheço-me numa fidelidade que me escapa. E o urro das ruas ou ciciar dos pássaros sublimes, projécteis, não pôde contradizer essa escuta.


18.

Que incauto dar-lhes a conhecer como o amor é precário morador dos jorros, da eterna intermitência de élitros móveis, sinais que duram ovulados mínimos sob fetos extintos pelo fogo ou sais extremos.


19.

Alegria: doravante murmurarei só diante da abundância dos teus gestos falantes tão alto, cantos.


21.

No entanto, na ausência de vigília ou furor nomenclativo, o felino sopesado após denominado arminho, leve pendor da heráldica, tinha o dorso fendido a toda a longitude. Ladeada pela pelagem cristalina, qual vulva muito extensa e plácida, não emitia a fissura nem sangue, nem humores. Acordei sob a indefinição carente ou do nome ou do pequeno rosto do teu primogénito, os dedos sobre a boca. É assim a espera das mulheres cheias de inscrições, escarificadas como bíblias.


22.

Revenho-te secreta. Realeza de um lado que houvera de ter outro.


25.

O prazer - sim, sim, sim, a valentia das dores como desvios menores, verso cingido.


28.

Não há erros, excessos de infortúnio. Só a fome, que deforma os joelhos que sustentam a consciência, abate as reses novas, acresce sobre os mares com lágrimas a distância de continente a continente. Ó bem amado pela abundância, indómita fortuna de doer-se alto, surdina do meu texto latindo.


29.

Eu falo da devassidão da pérola pelo lado de fora. Quão pura é a sua precisão de pele, o Sul, o Oriente.


30.

Die Lust die wir geniessen muss ein Geheimnis sein. Até de ti. As línguas são profusas, armas.


31.

Imparável como o espasmo da víscera insistente denominada cuore insano, moves-me.


32.

Sempre assim foi. Desgraça dos que não podem, uma e outra vez amados vitalmente, reconhecer a distância que medeia entre a humana matéria e a outra e a outra.


33.

Eu conto do teu silêncio, ó corpo de guerra literal; verás como a puberdade se oferendará de amores estas siglas tão ocultas, dizendo - eles amaram-se sobre o tempo, a tormenta.


37.

Ó chama, minha irmã, fiametta, agora doo quanto é necessário ser precioso com o óbvio. São as dulcíssimas ratas da madrugada, esquivas, que indesistentes, alagadas de visco suportado, parem as montanhas.


41.

Ah como todo o prazer mais vivo, o rutilante na memória, se ostenta do terror da morte, um desvio de olhos, prelúdio da ausência, do ser visto.


43.

Da explicação da arte fechada - porque te parece essa garganta e pequena emissão de gemido mais inolvidável que nenhuma outra?


47.

Há excessos que redundam em espécies tardiamente verosímeis, amáveis - vede os sáurios que imensas coxas deglutem, sem culpa.


50.

Toda a vulva é fechada como a expansão da noite.


52.

Sabeis, sabeis, pelos extremos denegados já - toda a fronteira é desânimo.


57.

Amo como o sopro. Porque vos obceca o tangível?


60.

Oferece-te onde não possas recusar após desvio, tentativas, tentações. Carne viva, há outra regra?


68.

Não ouves gemer, não ouves o divagar do menino cego das moscas, a prenhez de morte de um ventre mínimo? Posso suar por ti a linfa dos insectos a abater, lamber a fenda do teu crânio a descarnar totalmente, ofertar-te um nascituro votado a confundir-se com vermes e gargalhar airosamente da mortalidade enganosa. Ah, que mais queres - esta respiração não carece de monstros para processar-se curta à beira dos teus gestos duráveis, lestamente pesados. Não és tu erecção tão doce que meu receptáculo se cinge, alto monumento a toda a perdição, acalmia dos deuses, só pobreza?


75.

Amei-te desesperadamente. Frase esta que pode sustentar com a leveza álacre da papoila mondada, toda a pertinácia da seara, sustento múltiplo.


79.

Sim, sim, o amor é sempre transladado dos ossos onde a incineração dos costumes não pôde. Houve e há um deus mor e tenacíssimo, evolando-se desta clavícula de fêmea, convulso, destinado a fixar-se num paraíso impraticável donde há que expulsar, há que expulsar, que o interior dos ossos é excesso, suculência móbil - ó homem, minha chave do externo, asa do frontal.


93.

Toda a potencialidade de amor extremo é inconveniente como a proposta de anulação súbita de um universo onde há dor - fruto fétido, não te escolhi como alimento - é a minha boca antiquíssima que descai, como partes íntimas de fêmea velha, à evidência. É a violeta humílima, dita tal, que suporta porém a rosa na sua perenidade de incomestível arrogância. Só a beleza comoveu os deuses até à multiplicidade, distância.


102.

Toda a história de amor, reatada, é vosso augúrio da cidade momentaneamente entrevista como corpo desatado de roupas, limites. Só os animais são votados à tristeza do quanto demoramos nos bairros e visões mais periféricos.


125.

E qual corola a boca do seu corpo se prepara, desatenta sob os festejos e a decepção, para uma floração intensíssima.


156.

Ébrio o nome descerra as suas pernas, bragas de água, prometida, exígua até mais ver.


166.

Não escolhi a nocturna astúcia e altitude destas câmaras. Toda, toda a potência é condenação.

11 comentários:

Tomás disse...

Os contos da tua autoria estão publicados em algum lado?

Brás, Paulão disse...

bom dia, tomás. nenhum de nós tem ainda textos publicados. obrigado pela visita. *

Tomás disse...

tencionas fazê-lo? de nada *

Brás, Paulão disse...

sim, quem sabe um dia. sabes, apesar de acreditar no que faço, sou só mais um aluno de literatura que escreve e tenho, como qualquer outro, vontade de publicar.
como para mim não faz sentido distinguir a minha produção "erótica" (prosa e verso) da restante, não teria qualquer problema, antes pelo contrário, de ver os meus textos publicados, ainda que possam ser mal-interpretados (ou não-interpretados) e vistos unicamente como pornográficos.

Tomás disse...

que faculdade de letras? *

Brás, Paulão disse...

porto

Tomás disse...

que coincidência!
eu estudei na up, mas depois mudei-me para lisboa. sempre me interessei muito pelas ideias dos alunos de letras. tendo a considerar-vos sempre muito interessantes :-)
sabes de mais alguns trabalhos que possa ver? *

Brás, Paulão disse...

conheço um ou outro blog de colegas meus, mas isso depende dos teus interesses literários.

Tomás disse...

se mos pudesses dar, eu agradecia muito. gosto de ler. acho que até sofro com isso. por ler tanto.

Brás, Paulão disse...

http://grey-room-ferdinand.blogspot.com/
http://dobradosolhos.blogspot.com/
http://livrosemcriterio.wordpress.com/
http://amontanhatragica.blogspot.com/

diverte-te, tens por aí de tudo um pouco. de colegas e não-colegas. boa noite.

Tomás disse...

muito obrigado! vou dar uma vista de olhos a todos, depois digo alguma coisa. entretnato, vou passando por aqui. *