Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

Contos d'escárnio: textos grotescos (Hilda Hilst) II

«tenho uma vontade enorme de chupar dedos de negros.
não serve um charuto? perguntei exausto.
(...)
Clódia morava num ateliê ensolarado, vidraças dando para uma praça onde se vendiam flores em listradas barracas e onde boceteiras (atenção! são vendedoras ambulantes de miudezas) transitavam por lá, oferecendo rendas e pequeninos corações de veludo crivados de alfinetes. Levantava-se às 8 horas, tomava suco de orquídeas (dizia que as orquídeas alimentam a língua, tornando-a elástica e vibrátil. Era visivelmente louca), torradas com fatias delgadas de pepino, queijo-de-minas e uvas. As pinturas de Clódia eram vaginas imensas, algumas de densidade espessa, outras transparentes, algumas de um rubi-carmim enegrecido mas tênue, vaginas estendidas sobre as mesas, sobre colunas barrocas, vaginas dentro de caixas, dentro dos troncos das árvores, os grandes lábios estufados iguais à seda esticada, umas feito fornalhas, algumas tristes, pendentes, pentelhos aguados, ou iguais a caracóis, de um escuro nobre. A variedade de clitóris era inigualável: pequenos, textura de tafetá brilhoso, mínimos, cravados de ínfimos espinhos ou grandes, iguais a dedos mindinhos, duros de sensualidade e robustez. Pintava dedos tocando clitóris. Ou dedos isolados e tristes sobre as camas. Ou um único dedo tocando um clitóris-dedo. Dizia ter se inspirado no dedo de Deus da capela Sistina. Aquele do teto.
porque não pinta caralhos, hen Clódia?
ach, du süsser Bimmel... é muito complicado.
você diz o caralho em si, das Ding in sich?
o quê?
a coisa em si, o pau é que é complicado de pintar? Pois parece-me menos complicado do que essas conas aí.
como você é bobinho, du süsser Crassinho. Um caralho sem ereção é fatal para as tintas. Veja: uma vagina em repouso tem por si só vida, pulsão, cor. Um caralho em repouso é um verme morto. Com que tintas se pinta um verme morto?
verme?!
ó amorzinho, não fica assim, posso tentar pintar o teu em repouso, vem, vamos, tira as calças.
Tirei. Clódia me pede para sentar num banquinho alto. Sento. Pega um tela pequena. Olha tristemente para o meu pau.
estranho, ela diz.
por quê? o que há com o meu pau?
tem fissuras.
onde? pergunto assustado.
fissuras delicadas, benzinho, que só os meus olhos vêem.
Pega um tubo de tinta amarela.
amarelo não, Clódia, amarelo não é a cor do meu pau.
e você acha que os girassóis do outro eram daquela cor? Calma, amorzinho, amarelo é poder, é ouro, e ouro mesmo em repouso é valioso, tem carisma, o amarelo.
Fiquei umas duas horas posando para o primeiro retrato de um caralho em repouso. De vez em quando ela dava um beijinho no meu pau. Ele fremia(!)
Clódia: ah, vai estragar tudo, amorzinho, fica verme, fica.
O pau concretizou-se amarelusco na tela. Uma certa luz outonal o circundava bem no centro de um esboço de peras.
mas por que peras, Clódia?
são ilações, meu caro.
(...) Agora a campainha da porta. Visto as calças. É o nosso amigo escritor Hans Haeckel. Olha enojado para a tela:
o que é isso? Um verme!
não, o meu pau, eu digo.
não acredito. Ficou assim, é?
Tiro o pau pra fora.
claro que não. Ela é louca.
Hans: vamos dar um nome à tela: "falus agonicus de Crasso entre peras do outono".
Clódia achou lindo. Eu menos.

Hans Haeckel era um escritor sério, o infeliz. Adorava Clódia. (...) Foi ele quem deu nome às vaginas pintadas: pomba-ladina, pomba-aquosa, pomba-dementada, columba trevosa, columba vivace, pomba carnívora, pomba-luz, pomba-geena, molto trepidante, molto dormideira etc. (...)
Clódia, assim que terminou de pintar na tela o meu caralho, disse (...): "acabei de descobrir a ocupação da minha vida". Foi ficando muito inconveniente porque, assim que era apresentada a alguém, perguntava: posso ver o seu pau? Pintou paus de todos os tamanhos e expressões. Havia-os tão solitários, tão exangues que chegavam a causar compaixão. Outros afetados, pedantes. Havia-os desgarrados de si mesmos como se suplicassem pela própria existência. Alguns ostensivos, caralhudos vaidosos. Alguns muito, muitos alegrinhos. Clódia sentia vontade de pintar, sobre esses últimos, guirlandas de amor-perfeito. Outros dramáticos, quase ofegantes. O meu pau, por exemplo, na tela de Clódia.
tatuzinho, não gostaria de escrever um tratado sobre genitálias? Ou um exercício de textos lúbricos? Ou teatro repulsivo, quem sabe, hen?
logo mais, louca.
podemos começar amanhã, hen?
sim. Amanhã. Chupa agora.

Foi presa no dia seguinte por atentado ao pudor. Encontrou um mendigo no banco da praça de flores e pediu (como sempre, aliás) que o cara lhe mostrasse o pau. O paspalho não hesitou. Ali mesmo ela começou a riscar a carvão (os papéis que sempre carregava na pasta) a caceta do dito-cujo. Logo depois chegou a polícia (...).
Eu estava alarmado, ela sorria: "fica frio, liebling, coelhinho, tudo se arranja, tem suco de orquídea na geladeira, e pato e brotos de bambu e amêndoas e...". Quando fui procurá-la na delegacia disseram-me que tanto insistiu em ver o pau dos tiras que mandaram-na para um hospício logo ali. (...) Fui. Estava radiante.
liebling, vou ficar alguns dias, eles são adoráveis!
eles, quem?
os loucos, Crassinho, vê só, me deram de presente este texto de receitas! (...) Logo mais tô em casa, tá? E que cacetas, ursinho! Lindas! Loiras! E escuronas luzentes!»

2 comentários:

Brás, Paulão disse...

http://revista-aberta.blogspot.com/2010/12/pequenas-sugestoes-e-receitas-do.html

PL disse...

Que bom ver a H.H. por aqui.

Há uns tempos atrás escrevi um artigo sobre a influência de Catulo e Marcial na obra de Hilda Hilst, e, como é claro, este foi um dos pontos de partida para a sua redacção: uma ideia - para não dizer obsessão - que guardava há muito e que finalmente pude desenvolver como desejava. Interessante notar que, para além de Catulo e Marcial, também os Carmina Burana ecoam nos seus escritos.

Mas já que hoje se sublinha o homem de Verona, recordo agora a célebre entrevista, em que Hilda, confrontada com a possibilidade de tal influência clássica, responde (se a memória não me atraiçoa):


"Eu lembro que sempre que eu falava de Catulo pensavam que era o Catulo da Paixão Cearense."


A língua (ou a linguagem) de Hilda não nasce de espondeus (lembrando agora a ainda mais célebre expressão de Cícero), dispensa criptónimos, é, como escreveu Caio, um lugar de onde ninguém sai ileso.


Obrigada pela partilha e boa noite.