Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

Contos d'escárnio: textos grotescos (Hilda Hilst)

«Meu pau fremiu (essa frase aí é uma sequela minha por ter lido antanho o D.H. Lawrence). Digo talvez meu pau estremeceu? Meu pau agitou-se? Meu pau levantou a cabeça? Esse negócio de escrever é penoso. É preciso definir com clareza, movimento e emoção. E o estremecer do pau é indefinível. Dizer um arrepio do pau não é bom. Fremir é pedantesco. Eu devo ter lido uma má tradução do Lawrence, porque está aqui no dicionário: fremir (do latim fremere) ter rumor surdo e áspero. Dão um exemplo: "Os velozes vagões fremiam". Nada a ver com o pau. Depois, sinónimos: bramir, rugir, gemer, bramar. Cré, (...) nada mesmo a ver com o pau. Meu pau vibrou, meu pau teve contrações espasmódicas? Nem pensar. Então, meu pau aquilo. O leitor entendeu. Vi que a mulher chorava. Os lindos ombros sacudiam-se dentro da blusa de seda amarelo-dourada. Fungou no lencinho. (...) Era linda. O discreto decote da blusa deixava à mostra a textura reluzente da pele. E que pescoço! Não desses muito longos. (...) Tenho horror de pescoços longos. Eles me lembram cisnes. E cisne me lembra morte. A morte do cisne. E a morte do cisne me faz lembrar que também eu vou morrer um dia. (...) Tenho horror de quando começo a pensar. É repugnante. Graças ao demo, dono do planeta, há muito pouca gente que pensa. Ainda bem. (...) Disse-lhe o meu nome. Ela disse o dela. Clódia. Crasso e Clódia. Estaríamos em Roma? Achei fantástico. Eu havia lido Catulo aos 18 (...) e Clódia foi o grande amor de Catulo. (...) Verdade que a Clódia de Catulo gostava demasiado de homens. Pois acreditem: ela parecia gostar demais de mulheres. (...) Era museóloga, imaginem. Falava em volume, cor, espaço, traço, queria muito pintar também. Pinta? Perguntei.
olha, Crasso, tento.
e pinta o quê?
já é mais difícil de explicar.
paisagens, homens, mulheres, animais?
...
cabeças?
vaginas, Crasso.
(...) E aí, Satanás, ela começou a desfiar um palavrório enrolado barroco, torções, arabescos, purpúreas excrescências, pêlos dourados, cachos, frisos, laço, volume, cor, triângulos exatos, menos exatos do púbis (...).
você gosta tanto assim de cona? não gosta de pau não?
Ofendeu-se. Aguinha nos olhos. Incompreensão de homens e mulheres. De todos.
olhe, Clódia, não tenho nada contra vaginas, não.
Ofendeu-se de novo.
(...) você só gosta de mulheres?
De novo o barroco dos sentimentos, o embaciado, o indefinível, a névoa sobre as palavras, cré, pensei, já sei: é uma lambe-cona. (...)
Sorriu. E pelo sorriso vi que gostava de pau também.

(...)

Ó conas e caralhos, cuidai-vos! Clódia anda pelas ruas, pelas avenidas, olhando sempre abaixo de vossas cinturas! Cuidai-vos, adolescentes, machos, fêmeas, lolitas-velhas! Colocai vossas mãos sobre as genitálias! A leoa faminta caminha vagarosa, dourada, a úmida língua nas beiçolas claras! Os dentes, agulhas de marfim, plantados nas gengivas luzentes! Cáustica, Clódia atravessa ruas, avenidas e brilhosas calçadas. Ó, pelos deuses, adentrai vossas urnas de basalto porque a leoa ronda vossas salas e quartos! Quer lamber-vos a cona, quer adestrar caralhos, quer o néctar augusto de vagina e falo! Centuriões, moçoilos, guerreiros, senadores, atentai! Uma leoa persegue tudo o que é vivo mole incha e cresce! Trançai vossas pernas, trançai vossas mãos atentas sobre as partes pudendas! Não temais a vergonha de andar pelas ruas em torcidas posturas, pois Clódia está nas ruas!»

3 comentários:

Brás, Paulão disse...

1 - "a brincar a brincar" arranjei aqui epígrafe para um trabalho deste semestre sobre DH;
2 - acho que não resisto a fazer depois um outro post com o resto da história da Clódia...

Voluptia disse...

Em que obra é que isto está? :)

Brás, Paulão disse...

http://books.google.pt/books?id=6khlAAAAMAAJ&dq=inauthor%3A%22Hilda%20Hilst%22&source=gbs_book_other_versions