Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

O virgem negra* (Mário Cesariny)

Vem, Vulva antiqüíssima e idêntica
Vulva Rainha nascida destronada morta
Vulva igual por dentro ao silêncio, Vulva
Com teus pentelhos lantejoulas rápidas
No teu Ôlho franjado de infinito.

Vem mortamente
Vem pesadamente
Vem sòzinha, solène, com as mãos caídas,
Ao teu lado, vem
E traz as camas longínqüas para o pé das uréteras próximas
Faz da montanha um bloco só do teu corpo
Funde na regra tua todas as àguas que vejo
Todos os nervos com que és escura por dentro
Todas as luzes brancas como noivo e noiva
E deixa só um mu, e outro mu, e outro
Na distância imprecisa e subitamente perturbadora
Na distância subitamente impossível de percorrer.
Nossa Senhora
Das coisas imposssíveis que procuramos em vão
E que doem por sabermos que só assim as teremos,
No espelho baço do aposento não nosso,
Madre do Deus das terras infelizes
Mater Dolorosa das angústias dos tímidos
Sancta Virgo Virginum das pernas doos prisioneiros
Turris Eburnea dos olhos dos paneleiros
Sancta Dei Generectrix dos filhos das meretrizes
Vem e arranca-me
Do solo de angústia e de inutilidade
Onde vicejo,
Apanha-me do meu pénis, malmequer esquecido,
Folha a folha lê em mim não sei que sina
E desfolha-me para teu agrado,
Para teu agrado silencioso e fresco.
Uma folha de mim lança para o Norte
Onde estão as cidades que eu tanto amei,
Outra folha de mim lança para o Sul
Onde estão os mares que os Navegadores abriram,
Outra folha de mim atira ao Ocidente
Onde o demónio da acção cobriu tudo
Sem deixar sombra onde eu nasça
Ou possa, sequer, descansar
Reclinando a cabeça em minha própria nação,
E o resto, o resto de mim atira ao Oriente,
Ao Oriente de onde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
Ao Oriente que tudo o que nós não temos,
Que tudo o que nós não somos,
Ao Oriente onde - quem sabe? - Çiva-Parvati talvez realmente viva,
Onde Ardhanarishwar talvez exista realmente e mandando tudo...


* Fernando Pessoa explicado às criancinhas naturais & estrangeiras por M.C.V.
who knows enough about it.

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