Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

Novas cartas portuguesas (Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa) II

O PAI

«Era preversa:
dormia toda nua, os peitos soltos e brandos muito brancos e expostos tal como os seus mamilos largos, róseos, distendidos.
Durante o dia andava em casa com as blusas desabotoadas e sentava-se de qualquer maneira com os fatos a subirem-lhe sempre a meio das coxas, deixando antever entre as pernas uma escuridão macia, amolentada na sua meia penumbra.

Era preversa:
deitava-se nos sofás, ao comprido, os braços atirados para trás e ficava assim, toda lisa, ao seu alcance, sem mal, a passar a língua aguda pelos lábios já húmidos.

Era preversa:
de um louro fundo, a pele penugenta, os olhos de um azul duro, sempre adormentados.

Era preversa:
rodeava-lhe com os braços o pescoço, os seios a esmagarem-se-lhe de encontro ao peito e o hálito morno, sedoso, a roçar-lhe a boca, a rastejar-lhe perto, como que entorpecido de saliva.

Era preversa:
deixava a porta entreaberta, esquecida, enquanto se despia devagar, a descobrir o ventre brando, os ombros magros, devagar em breves movimentos, em secretos sons e pactos com a infância.

Era preversa:
trazia os cabelos em desalinho e mornos de sono quando o beijava de manhã, a dar-lhe os bons dias, com uma distracção do hábito tomada.

Era preversa:
dormia toda nua, os peitos soltos e brandos muito brancos e expostos tal como os seus mamilos largos, róseos, distendidos.

Quando entrou no quarto o homem hesitou, a olhá-la, a fixá-la no seu sono, mas logo avança, silencioso, e de manso pára junto à cama a hesitar novamente. Depois estende uma das mãos, desliza-a na curva suave do peito, na anca quente, doce, os dedos crispados a entranharem-se já nos pêlos sedosos do púbis.
Curva-se quando ela acorda e tapa-lhe a boca com força, brutal, mantendo-a deitada, firmemente, debaixo do seu corpo agora ao comprido sobre o dela.

Era preversa:
tinha um riso liberto, sedento, e uma maneira envolvente de olhar os outros; um odor enlouquecido a entreabrir-se aos poucos, como um fruto, obsessivo: obsessivamente, obsessivamente.

Indiferente, Mariana sente que ele sai de dentro de si, sujando-a de esperma também por fora. Depois vê-o que se levanta da cama, se veste à pressa e se vai embora sem a olhar, todo o tempo mudo, mesmo enquanto a forçara, mudo mesmo quando a tivera, rendida, afundada naquele torpor, de onde não quer sair nunca mais, cada hora mais fundamente perdida.
- Tens de deixar esta casa - disse-lhe ele numa voz neutra, monocórdica - não podemos continuar a viver todos juntos na mesma casa depois do que se passou. Foste a culpada de tudo, bem sabes que foste a culpada de tudo, eu sou homem; sou homem e tu és provocante, preversa. És preversa. Uma mulher sem vergonha, sem pudor. Não te quero ver mais, enojas-me, repugnas-me, envergonhas-me. Tu percebias, sei que percebias, que sabias como me punhas. Eu sou homem minha puta.
- Claro que sou uma puta, podes estar tranquilo, pai, sou uma puta.
- Grande cabra - chamou-lhe a mãe quando ela se dirigia para a porta da rua, agarrada às paredes para não cair.
- Grande cabra.»

23/4/71

1 comentário:

Aónia Campónia disse...

Ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah