Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.
acabámos aleatoriamente longe um do outro

eu prostrado já não é novidade (outono / fall / caio) mas fazem-nos deitar diretamente no chão e nós céticos asséticos não sabemos mais o que é sentir a terra molhada colar-se-nos aos flancos e o cheiro a loureiro temperar-nos a carne pelas narinas
começo por inspirar pelo nariz fecho os olhos deixo o meu peso fazer-se caro no soalho alivio a pressão das roupas a pressão dos músculos a pressão dos ossos não falo concentro-me o ar no peito faço-o descer ao ventre saturo-me esvazio-me devagar para sentir por esta altura já estou de novo sozinho círculo perfeito braços e pernas ligeiramente abertos lição de voo número um

por que me é tudo ode
[ass]iste a anéis lê aves que
criam o seu papel

a boca passa então a controlar a respiração sorvo o ar como um líquido espesso que desliza enchendo-me o corpo – o ardil da forma é o ardor do ritmo – já quase não ouço o ar solidifica entra direito na minha boca relaxo o maxilar o rosto tremente sanguíneo fazem-me regressar pela voz por baixo da água ainda afinal as palavras
e quase choro porque de repente vejo-o ao meu lado agarrado a mim lendo-me em braille as tachas do cinto querendo de novo aquele quarto aquela cama aquele filme vestidos a mão acariciando a fronte decorando as linhas o sinal a falha o branco: agora que são absurdas as grandes narrativas e a possibilidade da felicidade eterna troquemos o sublime de lente inatingível por um outro microscópico

eu vivo sintético mas dou-me suicida
ele é desregrado por definição mas nunca se expõe totalmente
e encolhe-se quando o abraço

oiça voltámos no final dos anos zero a um amor que se quer negro rei morto rei posto montando o cadáver o sangue de volta ao palco embora nunca dele tenha saído verdadeiramente e enquanto uma parte de mim goza ao máximo o holocausto as galdérias no espeto o jogo a bicha lambida a outra parte só quer um amor potável de gardénias para sussurrar onomatopeias e dizer poetas de três nomes – triste a aporia fundida na boca em coalhos de vigor branco

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