Fundada a 17 de agosto de 2007 por Carolina Marcello, Joana Coutinho e Paulo Brás, encerrou a sua atividade enquanto revista erótica a 17 de agosto de 2013, reabrindo a 12 de dezembro do mesmo ano como plataforma do projeto A MULHER É O FUTURO DO HOMEM.

Seis canções óbvias (Ricardo Domeneck) *

1.

Sair da cama, disse,
foi simplesmente
uma idéia incrível
e deliberada
De invernos frutíferos
construíram-se
muitos infernos na
primavera
A cama é um inferno pessoal
e intransferível
E a pele vestida à noite
desprega-se para acompanhar
outra calçada pela manhã
A transferência de corpo pratico-a
com diligência
É tudo tão simples, dizem
Hilda Hilst havia medo da morte
e morreu
assim como o MASP
é ao mesmo tempo
museu e mirante
Ergue-se o deliberado sobre
simples patas


2.

Entra-se com violência onde
o prazer arrasta-se
pelas paredes e
diz-se "aqui"
À pretensão de acreditar que
desconhecia a própria
capacidade para a
devastação ela
chorou pensando
em aviões e
prédios
A inocência não se perde mas
se ajusta
Horror horror é irrepetível
Paraísos são destinos
populares para férias
E uma grávida gargalhando
enche-nos de sensações
misturadas e transferíveis
Enrodilhados com os joelhos no
queixo esperamos pela
saída


3.

As paredes do quarto não resistem
à adstringência
A cama recebe e despacha
desejos de ejeção
e a ânsia na
garganta típica da
manhã não impede
a ereção
Febre aloja-se na boca
Mas a cama nem sempre
serve de grade
para o corpo
como a rua
apressa-se para
sustentar-me os pés
A temperatura queima os cabelos
atinge o diafragma
e arma a paliçada
contra a crista ilíaca
Toda transação entre amantes
é bulímica
A sensação de queda é contato
provisório com minha
atual situação ou
com minha condição
perene?
Uma cama ou mesa no espaço
é um local para discussão


4.

O presente o passado mais recente
Correr em público é deselegante por
expor o repúdio
público à consciência
dos limites?
Ofegante, ele escondeu o suor
O presente é possível, mas cansa
e resseca
Há um limite para a elasticidade
da memória
Fogos periódicos asseguram
a sobrevivência se
não deste arbusto,
da mata como
um todo
O medo de uma porta aberta mesmo
na menor e mais quieta
cidade
Tiro e pássaro são possíveis como
qualquer dádiva
É papel das dádivas e do acaso
encurtarem o presente
O espaço virtual não é infinito
Nem meu cansaço


5.

Reabasteço meu corpo de chá e
de orgasmos e escolho
não pensar nele
Basta formular o problema central,
ou seja, o problema
Não se pode estar presente a toda
fruta em amadurecimento
e queda
O chão não é distante
Quando se morre se morre
e a manhã seguinte não
traz notícias do
engano
Estamos ausentes a nosso nascimento
e morte
E estou pensando nele
Isso faz dele alguém presente
A perda ocorre aos que possuíam
e não mais e aos que
estavam ausentes
A ausência é estatisticamente maior
que a presença


6.

As relações de uma ilha
com um cataclismo
são claras
As águas cercam e a areia
adstringe
Mas o excesso gera a possibilidade
de cobrir mais campo
e percorrer maiores
espaços
Vide o maremoto
Cubro meu corpo de água
duas vezes ao dia
Você está respirando?
Algo deve estar doendo
Os pulmões têm uma caixa
para restringi-los
e isso torna o ar
palpável e concreto
A dor nega abstrações
como, por exemplo,
meu baço
e pâncreas
Se houve um dilúvio, as
formas sobreviveram
a ele e um monte
roçou o umbigo
da arca
Roce o meu mais uma vez
É costume no interior que as
mães enterrem o
cordão umbilical
que se desprende
A dor é um excesso, e existe
em anexo sem
pudores
O acaso atesta o deliberado
E perdemos dias preciosos


* Com o devido agradecimento ao Robson, pela lembrança.

1 comentário:

Brás, Paulão disse...

adoro os dois últimos. e várias coisas dos outros.