A(L)BERTA
18.3.12
17.3.12
Cadernos: o sentimento (Nijinski)
Não quero chamar-te pelo nome porque não se pode chamar-te pelo nome. Não estou a escrever-te à pressa porque não quero que penses que estou nervoso. Não sou um homem nervoso. Sei escrever calmamente. Gosto de escrever. Não gosto de escrever frases bonitas. Não aprendi a escrever frases bonitas. Quero escrever o pensamento. Preciso do pensamento. Não tenho medo de ti. Sei que me odeias. Amo-te como se ama um ser humano. Não quero trabalhar contigo. Quero dizer-te uma coisa. Trabalho muito. Não morri. Estou vivo. Deus vive em mim. Eu vivo em Deus. Deus vive em mim. Ando muito ocupado com a minha dança. A minha dança está a fazer progressos. Escrevo bem, mas não sei escrever frases bonitas. Tu formas companhias de bailado. Eu não formo companhias de bailado. Não sou um cadáver. Sou um homem vivo. Tu és um homem morto porque os teus objetivos estão mortos. Não te chamei amigo porque sei que és meu inimigo. Não sou teu inimigo. Um inimigo não é Deus. Deus não é um inimigo. Os inimigos procuram a morte, eu procuro a vida. Eu tenho amor. Tu tens rancor. Eu não sou uma fera. Tu és uma fera. As feras não gostam das pessoas. Eu gosto das pessoas. O Dostoievski gostava das pessoas. Não sou um idiota. Sou um ser humano. O Idiota do Dostoievski é um homem. Eu sou um idiota. O Dostoievski é um idiota. Tu pensavas que eu era estúpido. Eu pensava que tu eras estúpido. Pensávamos que éramos estúpidos. Não quero declinar verbos. Não gosto de declinações. Tu gostas que as pessoas se curvem diante de ti. Eu gosto que as pessoas se curvem diante de mim. Tu insultas aqueles que se curvam. Eu amo aqueles que se curvam. Eu atraio as pessoas que se curvam. Tu assustas as pessoas que se curvam. O teu afeto não é afeto. O meu afeto é afeto. Não quero o teu sorriso porque cheira a morte. Eu não sou a morte, e não sorrio. Não escrevo para troçar. Escrevo para chorar. Sou um homem com sentimento e com razão. Tu és um homem com inteligência, mas sem sentimento. O teu sentimento é mau. O meu sentimento é bom. Tu queres destruir-me. Eu quero salvar-te. Eu gosto de ti. Tu não gostas de mim. Quero-te bem. Tu queres-me mal. Conheço-te as manhas. Fingia que era nervoso. Fingia que era estúpido. Não era nenhum miúdo. Era Deus. Sou Deus em ti. Tu és um animal e eu sou amor. Agora, tu não amas essas pessoas. Eu amo essas pessoas, todas as pessoas, agora. Não penses, não ouças. Não sou teu. Tu não és meu. Agora, amo-te. Amo-te sempre. Sou teu. Sou meu. És meu. Gosto de te declinar. Gosto de me declinar. Sou teu. Sou meu. (...) Quero escrever-te muito, mas não quero trabalhar contigo, porque os teus objetivos são diferentes. Sei que sabes fingir. Não gosto de fingimentos. Gosto de fingimentos, quando uma pessoa quer o bem de outros. Tu és um homem mau. Não és nenhum czar. Eu sou um czar. Tu não és o meu czar, mas eu sou o teu czar. Queres-me mal. Eu não te quero mal. Tu és mau, mas eu embalo-te. Ó-ó, ó-ó, ó-ó. Dorme em paz, ó-ó, ó-ó. Ó-ó. Ó-ó. Ó-ó.
Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo
Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo
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16.3.12
L'Apollonide: souvenirs de la maison close (Bertrand Bonello)
«You stare at me and seem to want to hurt me. Your face turns normal again, It's the old you. You continue to stare at me and then I feel you're coming. As you come between my thighs, I feel your sperm rise up within me and fill me and flow out through my eyes. There are white tears, thick ones, coating my cheeks. My mouth is red and the white tears trickle over it. I don't want to wipe them away. I cry so much. I can't stop crying.»
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15.3.12
14.3.12
iamamiwhoami II *
- Do you have the ability to love? If so, were you born with it or was it learned?
- As I stay a little while longer I am damaged in the making but I force myself towards departing. I have to be the rascal taking all.
- Why speak in codes?
- What is expected, to carry you in my arms?
* excerto da entrevista pela revista Bullett em que todas as respostas são citações de letras do projeto
- As I stay a little while longer I am damaged in the making but I force myself towards departing. I have to be the rascal taking all.
- Why speak in codes?
- What is expected, to carry you in my arms?
* excerto da entrevista pela revista Bullett em que todas as respostas são citações de letras do projeto
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13.3.12
12.3.12
Adília Lopes II
Lembro, a terminar, uma das cenas de cinema mais comoventes para mim. É do filme de Clint Eastwood Imperdoável (Unforgiven, 1992). Uma prostituta de um bordel do Far West foi esfaqueada na cara por um cliente mal disposto. A pedido das colegas, Clint Eastwood vinga-a. A prostituta, em sinal de reconhecimento, pergunta a Clint Eastwood se quer fazer amor. Clint Eastwood responde-lhe que não. A prostituta esclarece prontamente que, é óbvio, não será com ela que está desfigurada, com a cara coberta de cicatrizes, mas com uma colega. Clint Eastwood responde-lhe que também ele tem cicatrizes. E não fazem amor.
lido aqui
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11.3.12
10.3.12
Coisas de partir (Ana Luísa Amaral)
Faço eroticamente respiração contigo:
primeiro um advérbio, depois um adjectivo
primeiro um advérbio, depois um adjectivo
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poesia
9.3.12
8.3.12
7.3.12
Falta (Sarah Kane) II
A
E eu quero brincar às escondidas contigo e dar-te as minhas roupas e dizer que gosto dos teus sapatos e sentar-me nos degraus enquanto tu tomas banho e massajar o teu pescoço e beijar-te os pés e segurar na tua mão e ir comer uma refeição e não me importar se tu comes a minha comida e encontrar-me contigo no Rudy e falar sobre o dia e passar à máquina as tuas cartas e carregar as tuas caixas e rir da tua paranóia e dar-te cassetes que tu não ouves e ver filmes óptimos, ver filmes horríveis e queixar-me da rádio e tirar-te fotografias a dormir e levantar-me para te ir buscar café e brioches e folhados e ir ao Florent beber café à meia-noite e tu a roubares-me os cigarros e a nunca conseguir achar sequer um fósforo e falar-te sobre o programa de televisão que vi na noite anterior e levar-te ao oftalmologista e não rir das tuas piadas e querer-te de manhã mas deixar-te dormir um bocado e beijar-te as costas e tocar na tua pele e dizer quanto gosto do teu cabelo dos teus olhos dos teus lábios do teu pescoço dos teus peitos do teu rabo do teu e sentar-me nos degraus a fumar até o teu vizinho chegar a casa e se sentar nos degraus a fumar até tu chegares a casa e preocupar-me quando estás atrasada e ficar surpreendido quando chegas cedo e dar-te girassóis e ir à tua festa e dançar até ficar todo negro e pedir desculpa quando estou errado e ficar feliz quando me desculpas e olhar para as tuas fotografias e desejar ter-te conhecido desde sempre e ouvir a tua voz no meu ouvido e sentir a tua pele na minha pele e ficar assustado quando estás zangada e um dos teus olhos vermelho e o outro azul e o teu cabelo para a esquerda e o teu rosto para oriente e dizer-te que és lindíssima e abraçar-te quando estás ansiosa e amparar-te quando estás magoada e querer-te quando te cheiro e ofender-te quando te toco e choramingar quando estou ao pé de ti e choramingar quando não estou e babar-me para o teu peito e cobrir-te à noite e ficar frio quando me tiras o cobertor e quente quando não o fazes e derreter-me quando sorris e desintegrar-me quando te ris e não compreender por que é que pensas que eu te estou a deixar quando eu não te estou a deixar e pensar como é que tu podes achar que eu alguma vez te podia deixar e pensar em quem tu és mas aceitar-te na mesma e contar-te sobre o rapaz da floresta encantada de árvores anjo que voou por cima do oceano porque te amava e escrever-te poemas e pensar por que é que tu não acreditas em mim e ter um sentimento tão profundo que para ele não existem palavras e querer comprar-te um gatinho do qual teria ciúmes porque teria mais atenção que eu e atrasar-te na cama quando tens de ir e chorar como um bebé quando finalmente vais e ver-me livre das baratas e comprar-te prendas que tu não queres e levá-las de volta outra vez e pedir-te em casamento e tu dizeres não outra vez mas eu continuar a pedir-te porque embora tu penses que eu não estou a falar a sério eu estou mesmo a falar a sério desde a primeira vez que te pedi e vaguear pela cidade pensando que ela está vazia sem ti e querer aquilo que queres e achar que me estou a perder mas saber que estou seguro contigo e contar-te o pior que há em mim e tentar dar-te o meu melhor porque não mereces menos e responder às tuas perguntas quando deveria não o fazer e dizer-te a verdade quando na verdade não o quero e tentar ser honesto porque sei que preferes assim e pensar que acabou tudo mas ficar agarrado a apenas mais dez minutos antes de me atirares para fora da tua vida e esquecer-me de quem eu sou e tentar chegar mais perto de ti porque é maravilhoso aprender a conhecer-te e vale bem o esforço e falar mau alemão contigo e pior ainda em hebreu e fazer amor contigo às três da manhã e de alguma maneira de alguma maneira de alguma maneira transmitir algum do esmagador imortal irresistível incondicional abrangente preenchedor desafiante contínuo e infindável amor que tenho por ti.
Tradução de Pedro Marques
E eu quero brincar às escondidas contigo e dar-te as minhas roupas e dizer que gosto dos teus sapatos e sentar-me nos degraus enquanto tu tomas banho e massajar o teu pescoço e beijar-te os pés e segurar na tua mão e ir comer uma refeição e não me importar se tu comes a minha comida e encontrar-me contigo no Rudy e falar sobre o dia e passar à máquina as tuas cartas e carregar as tuas caixas e rir da tua paranóia e dar-te cassetes que tu não ouves e ver filmes óptimos, ver filmes horríveis e queixar-me da rádio e tirar-te fotografias a dormir e levantar-me para te ir buscar café e brioches e folhados e ir ao Florent beber café à meia-noite e tu a roubares-me os cigarros e a nunca conseguir achar sequer um fósforo e falar-te sobre o programa de televisão que vi na noite anterior e levar-te ao oftalmologista e não rir das tuas piadas e querer-te de manhã mas deixar-te dormir um bocado e beijar-te as costas e tocar na tua pele e dizer quanto gosto do teu cabelo dos teus olhos dos teus lábios do teu pescoço dos teus peitos do teu rabo do teu e sentar-me nos degraus a fumar até o teu vizinho chegar a casa e se sentar nos degraus a fumar até tu chegares a casa e preocupar-me quando estás atrasada e ficar surpreendido quando chegas cedo e dar-te girassóis e ir à tua festa e dançar até ficar todo negro e pedir desculpa quando estou errado e ficar feliz quando me desculpas e olhar para as tuas fotografias e desejar ter-te conhecido desde sempre e ouvir a tua voz no meu ouvido e sentir a tua pele na minha pele e ficar assustado quando estás zangada e um dos teus olhos vermelho e o outro azul e o teu cabelo para a esquerda e o teu rosto para oriente e dizer-te que és lindíssima e abraçar-te quando estás ansiosa e amparar-te quando estás magoada e querer-te quando te cheiro e ofender-te quando te toco e choramingar quando estou ao pé de ti e choramingar quando não estou e babar-me para o teu peito e cobrir-te à noite e ficar frio quando me tiras o cobertor e quente quando não o fazes e derreter-me quando sorris e desintegrar-me quando te ris e não compreender por que é que pensas que eu te estou a deixar quando eu não te estou a deixar e pensar como é que tu podes achar que eu alguma vez te podia deixar e pensar em quem tu és mas aceitar-te na mesma e contar-te sobre o rapaz da floresta encantada de árvores anjo que voou por cima do oceano porque te amava e escrever-te poemas e pensar por que é que tu não acreditas em mim e ter um sentimento tão profundo que para ele não existem palavras e querer comprar-te um gatinho do qual teria ciúmes porque teria mais atenção que eu e atrasar-te na cama quando tens de ir e chorar como um bebé quando finalmente vais e ver-me livre das baratas e comprar-te prendas que tu não queres e levá-las de volta outra vez e pedir-te em casamento e tu dizeres não outra vez mas eu continuar a pedir-te porque embora tu penses que eu não estou a falar a sério eu estou mesmo a falar a sério desde a primeira vez que te pedi e vaguear pela cidade pensando que ela está vazia sem ti e querer aquilo que queres e achar que me estou a perder mas saber que estou seguro contigo e contar-te o pior que há em mim e tentar dar-te o meu melhor porque não mereces menos e responder às tuas perguntas quando deveria não o fazer e dizer-te a verdade quando na verdade não o quero e tentar ser honesto porque sei que preferes assim e pensar que acabou tudo mas ficar agarrado a apenas mais dez minutos antes de me atirares para fora da tua vida e esquecer-me de quem eu sou e tentar chegar mais perto de ti porque é maravilhoso aprender a conhecer-te e vale bem o esforço e falar mau alemão contigo e pior ainda em hebreu e fazer amor contigo às três da manhã e de alguma maneira de alguma maneira de alguma maneira transmitir algum do esmagador imortal irresistível incondicional abrangente preenchedor desafiante contínuo e infindável amor que tenho por ti.
Tradução de Pedro Marques
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deixas
6.3.12
5.3.12
Ornament and crime (Adolf Loos)
«All art is erotic.
The first ornament that came into being, the cross, had an erotic origin. The first work of art, the first artistic action of the first artist daubing on the wall, was in order to rid himself of his natural excesses. A horizontal line: the reclining woman. A vertical line: the man who penetrates her. The man who created it felt the same urge as Beethoven, he experienced the same joy that Beethoven felt when he created the Ninth Symphony.
But the man of our time who daubs the walls with erotic symbols to satisfy an inner urge is a criminal or a degenerate. It is obvious that this urge overcomes man; such symptoms of degeneration most forcefully express themselves in public conveniences. One can measure the culture of a country by the degree to which its lavatory walls are daubed. With children it is a natural phenomenon: their first artistic expression is to scrawl on the walls erotic symbols. But what is natural to the Papuan and the child is a symptom of degeneration in the modern man. (...)
Ornament is not merely produced by criminals, it commits a crime itself».
1908
The first ornament that came into being, the cross, had an erotic origin. The first work of art, the first artistic action of the first artist daubing on the wall, was in order to rid himself of his natural excesses. A horizontal line: the reclining woman. A vertical line: the man who penetrates her. The man who created it felt the same urge as Beethoven, he experienced the same joy that Beethoven felt when he created the Ninth Symphony.
But the man of our time who daubs the walls with erotic symbols to satisfy an inner urge is a criminal or a degenerate. It is obvious that this urge overcomes man; such symptoms of degeneration most forcefully express themselves in public conveniences. One can measure the culture of a country by the degree to which its lavatory walls are daubed. With children it is a natural phenomenon: their first artistic expression is to scrawl on the walls erotic symbols. But what is natural to the Papuan and the child is a symptom of degeneration in the modern man. (...)
Ornament is not merely produced by criminals, it commits a crime itself».
1908
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testemunhos
4.3.12
3.3.12
2.3.12
Uma viagem à Índia (Gonçalo M. Tavares) III
Melancolia contemporânea: um itinerário
Canto IX
pele
22.
Se Bloom não encontrara a tranquilidade
pelo espírito talvez a encontrasse através
da pele, eis o que Jean M pensava enquanto
contratava mulheres sexualmente bem
organizadas. O júbilo surge pelas
mais diferentes vias; nada é linear nos
homens, somente as leis da física são
previsíveis, pensava Jean M. Músicas
invisíveis, por exemplo, apoderam-se dos corpos de
maneiras distintas. E tendo o homem sensações
nada é de excluir no seu futuro.
Se Bloom não encontrara a tranquilidade
pelo espírito talvez a encontrasse através
da pele, eis o que Jean M pensava enquanto
contratava mulheres sexualmente bem
organizadas. O júbilo surge pelas
mais diferentes vias; nada é linear nos
homens, somente as leis da física são
previsíveis, pensava Jean M. Músicas
invisíveis, por exemplo, apoderam-se dos corpos de
maneiras distintas. E tendo o homem sensações
nada é de excluir no seu futuro.
tacto
23.
Nos livros a prosa viril pode excitar
ouvidos mais sensíveis, mas a realidade,
tendo tendência para deixar que os materiais
pousem sobre ela, torna-se bem
mais propensa ao tacto e, portanto, a uma
certa alegria especializada. Nenhum imbecil
emperra por ser imbecil quando
se trata de fazer funcionar órgãos erectos sobre
outros órgãos de chegada.
São especializações distintas, murmura Jean M, para si próprio.
Nos livros a prosa viril pode excitar
ouvidos mais sensíveis, mas a realidade,
tendo tendência para deixar que os materiais
pousem sobre ela, torna-se bem
mais propensa ao tacto e, portanto, a uma
certa alegria especializada. Nenhum imbecil
emperra por ser imbecil quando
se trata de fazer funcionar órgãos erectos sobre
outros órgãos de chegada.
São especializações distintas, murmura Jean M, para si próprio.
prazer
24.
Claro que no amor, note-se,
compacto e obsceno, dos dois lados se parte
e aos dois lados se chega. E por vezes há mesmo
mais lados que dois lados - o que poderá instalar
o momentâneo desequilíbrio.
No entanto, o assunto é sério. Por vezes o desejo entorna-se
como um crime e os seus efeitos não divertem.
É que nenhuma descoberta da ciência modifica tão
fortemente o rosto de um homem
como os momentos de prazer.
(...)
28.
De resto, como bem sabe Jean M, homens obscenos existem
em cada uma das cidades e em todos os climas.
Não há elemento que acalme a excitação:
próximo do mar praticam-se burlas amorosas
em igual quantidade às praticadas nos últimos
andares dos grandes edifícios.
E a maldade ao lado do mar não o torna negro.
29.
(...)
Na cama, ruídos perversos saem do suor
do militar que conquistou, em oito meses,
metade de um país extenso. O desejo
abre uma cova para enterrar
a ética e dois homens urinam para a terra,
acompanhados de dois risos maus.
30.
Mas também há o amor, claro. (...)
Uma cicatriz junta mãos dóceis,
que aumentam a sua precisão afectiva com
a ligeira tragédia exterior.
(...)
Claro que no amor, note-se,
compacto e obsceno, dos dois lados se parte
e aos dois lados se chega. E por vezes há mesmo
mais lados que dois lados - o que poderá instalar
o momentâneo desequilíbrio.
No entanto, o assunto é sério. Por vezes o desejo entorna-se
como um crime e os seus efeitos não divertem.
É que nenhuma descoberta da ciência modifica tão
fortemente o rosto de um homem
como os momentos de prazer.
(...)
28.
De resto, como bem sabe Jean M, homens obscenos existem
em cada uma das cidades e em todos os climas.
Não há elemento que acalme a excitação:
próximo do mar praticam-se burlas amorosas
em igual quantidade às praticadas nos últimos
andares dos grandes edifícios.
E a maldade ao lado do mar não o torna negro.
29.
(...)
Na cama, ruídos perversos saem do suor
do militar que conquistou, em oito meses,
metade de um país extenso. O desejo
abre uma cova para enterrar
a ética e dois homens urinam para a terra,
acompanhados de dois risos maus.
30.
Mas também há o amor, claro. (...)
Uma cicatriz junta mãos dóceis,
que aumentam a sua precisão afectiva com
a ligeira tragédia exterior.
(...)
amor
32.
(...)
A única velharia que chegou intacta
ao estúpido século XXI
é a do amor. A população é dispensada
de se dirigir a um centro
que entregue intacto o instinto
amoroso, pois recebe-se essa coisa obscura logo
ao nascer e morre-se com ela. O amor
como coisa obscura que afina os dias.
(...)
(...)
A única velharia que chegou intacta
ao estúpido século XXI
é a do amor. A população é dispensada
de se dirigir a um centro
que entregue intacto o instinto
amoroso, pois recebe-se essa coisa obscura logo
ao nascer e morre-se com ela. O amor
como coisa obscura que afina os dias.
(...)
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poesia
1.3.12
29.2.12
Bíblia, I Coríntios 8:1
«A ciência incha mas o amor edifica»
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testemunhos
28.2.12
27.2.12
Trabalhar sobre o corpo e sobre a escrita (José Gabriel Pereira Bastos)
«Os reconstrutores da Vénus mutilada punham todos esta pergunta: que falta no corpo do amor quando não está completo?»
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testemunhos
26.2.12
25.2.12
O jogo das perguntas ou A viagem à terra sonora (Peter Handke)
para Ferdinand Raimund, Anton Tchekov,
John Ford e todos os outros
John Ford e todos os outros
ATOR
Depois aconteceram três coisas, todas ao mesmo tempo: senti um impulso para me dirigir a ti, te agarrar, te levar comigo e contigo deixar um rasto de sangue e esperma por todo o continente, até ao fim dos tempos; e ao mesmo tempo desejava que tu quisesses abandonar-me imediatamente e para sempre, para eu poder ficar só com a tua imagem; e a terceira coisa era o desejo que eu próprio sentia de desaparecer ali mesmo, de me pôr a correr pelas colinas, de fugir de ti ao encontro do perigo, em busca, não propriamente do Graal ou do Velo de Ouro, mas de alguma coisa de valor igual, de ficar anos a fio ausente em terras estranhas, e só depois de mudar o suficiente para te merecer me unir então a ti num terceiro lugar, como se a felicidade só fosse alcançável por caminhos ínvios como estes. (...)
Tradução de João Barrento
Depois aconteceram três coisas, todas ao mesmo tempo: senti um impulso para me dirigir a ti, te agarrar, te levar comigo e contigo deixar um rasto de sangue e esperma por todo o continente, até ao fim dos tempos; e ao mesmo tempo desejava que tu quisesses abandonar-me imediatamente e para sempre, para eu poder ficar só com a tua imagem; e a terceira coisa era o desejo que eu próprio sentia de desaparecer ali mesmo, de me pôr a correr pelas colinas, de fugir de ti ao encontro do perigo, em busca, não propriamente do Graal ou do Velo de Ouro, mas de alguma coisa de valor igual, de ficar anos a fio ausente em terras estranhas, e só depois de mudar o suficiente para te merecer me unir então a ti num terceiro lugar, como se a felicidade só fosse alcançável por caminhos ínvios como estes. (...)
Tradução de João Barrento
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deixas
24.2.12
23.2.12
Porno promo LXVIII
«He draws near the periphery
In disbelief on delivery»
In disbelief on delivery»
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promos
22.2.12
21.2.12
20.2.12
19.2.12
Uma viagem à Índia (Gonçalo M. Tavares) II
Melancolia contemporânea: um itinerário
Canto V
solidão
40.
De qualquer maneira, ninguém está assim tão vivo.
O inexplicável não é, muitas vezes, o reduzido número de paixões
por dia, mas sim a razão por que não nos atiramos todos,
um a um, a intervalos regulares, de um prédio alto.
Não há duas pessoas que estejam ao mesmo tempo
no mesmo lugar: uma pessoa foge das
outras. No autocarro, lê-se o jornal para não se olhar para o lado.
O frio deixou de entrar pela janela – entra pelas notícias.
Fecha-se o jornal; já podes levantar os olhos: felizmente, estás sozinho.
41.
Os homens estão desolados e com insónias.
Tomam comprimidos e dizem
versos belíssimos, mas esquecem-se de regar
as plantas. Todos os seres vivos morrerão
se passares dia e noite a recitar versos,
a corrigir pequenos problemas de dicção,
a organizar, por fora, a História da beleza.
É feio e ficou, eis o Homem.
42.
Pagas para ver ruínas e dizes: que belo!
Da janela admiras o exercício explícito do cio
nos animais: nos cães abundam
as semelhanças com a nossa espécie,
mas ficas chocado. Quase fechas a janela.
Não têm pudor, nem quartos baratos
em pensões indecisas: os cães têm que o fazer na rua,
como fazem todas as espécies
não civilizadas. Os cães não tiveram
os Gregos como antepassado, e isso nota-se.
43.
Mas tudo se passa como se os habitantes
da cidade fossem, em vez de crápulas,
substâncias entre o anjo e um material
que ao tacto seja semelhante ao veludo.
Contudo, se passares docemente a mão sobre
o rosto de alguém da nossa espécie
ficarás com a mão ferida. (...)
De qualquer maneira, ninguém está assim tão vivo.
O inexplicável não é, muitas vezes, o reduzido número de paixões
por dia, mas sim a razão por que não nos atiramos todos,
um a um, a intervalos regulares, de um prédio alto.
Não há duas pessoas que estejam ao mesmo tempo
no mesmo lugar: uma pessoa foge das
outras. No autocarro, lê-se o jornal para não se olhar para o lado.
O frio deixou de entrar pela janela – entra pelas notícias.
Fecha-se o jornal; já podes levantar os olhos: felizmente, estás sozinho.
41.
Os homens estão desolados e com insónias.
Tomam comprimidos e dizem
versos belíssimos, mas esquecem-se de regar
as plantas. Todos os seres vivos morrerão
se passares dia e noite a recitar versos,
a corrigir pequenos problemas de dicção,
a organizar, por fora, a História da beleza.
É feio e ficou, eis o Homem.
42.
Pagas para ver ruínas e dizes: que belo!
Da janela admiras o exercício explícito do cio
nos animais: nos cães abundam
as semelhanças com a nossa espécie,
mas ficas chocado. Quase fechas a janela.
Não têm pudor, nem quartos baratos
em pensões indecisas: os cães têm que o fazer na rua,
como fazem todas as espécies
não civilizadas. Os cães não tiveram
os Gregos como antepassado, e isso nota-se.
43.
Mas tudo se passa como se os habitantes
da cidade fossem, em vez de crápulas,
substâncias entre o anjo e um material
que ao tacto seja semelhante ao veludo.
Contudo, se passares docemente a mão sobre
o rosto de alguém da nossa espécie
ficarás com a mão ferida. (...)
pormenor
50.
Devemos perceber o que significa os pequenos gestos
terem sido substituídos
pelos grandes movimentos.
Na cidade já não há pormenores,
verifica-o. As pessoas cruzam-se
sempre em momentos de partida ou de chegada.
Ninguém fica. Não há estados intermédios.
Do coração dos homens o que as mulheres conhecem
são electrocardiogramas saudáveis. E vice-versa.
Devemos perceber o que significa os pequenos gestos
terem sido substituídos
pelos grandes movimentos.
Na cidade já não há pormenores,
verifica-o. As pessoas cruzam-se
sempre em momentos de partida ou de chegada.
Ninguém fica. Não há estados intermédios.
Do coração dos homens o que as mulheres conhecem
são electrocardiogramas saudáveis. E vice-versa.
amor
51.
Por inabilidade, timidez e horários não coincidentes,
desde o século passado que o amor
se expressa melhor colocado em envelopes,
ao longe. Corpo a corpo, o amor
transformou-se numa habilidade técnica.
Bloom, por exemplo, está excitado – mas não se lembra porquê.
52.
E os poetas desapareceram.
De facto, o que alguém quis dizer,
e tinha razão, foi que a poesia limpa e belíssima é inaceitável
depois do que os homens fizeram a outros homens
no século XX. É um facto, as palavras
delicadas são inaceitáveis. Mas não esquecer o resto.
Apesar de tudo, bater dói mais do que dizer que se vai bater.
Por inabilidade, timidez e horários não coincidentes,
desde o século passado que o amor
se expressa melhor colocado em envelopes,
ao longe. Corpo a corpo, o amor
transformou-se numa habilidade técnica.
Bloom, por exemplo, está excitado – mas não se lembra porquê.
52.
E os poetas desapareceram.
De facto, o que alguém quis dizer,
e tinha razão, foi que a poesia limpa e belíssima é inaceitável
depois do que os homens fizeram a outros homens
no século XX. É um facto, as palavras
delicadas são inaceitáveis. Mas não esquecer o resto.
Apesar de tudo, bater dói mais do que dizer que se vai bater.
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poesia
18.2.12
The broken tower (James Franco)
are your fingers long enough to play
old keys that are but echoes
Hart Crane, My grandmother’s love letters
old keys that are but echoes
Hart Crane, My grandmother’s love letters
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